31 URBE | # 01/04 | CARTOGRAFIAS URBANAS simbólico e de sentido de identidade de grupos sociais ao entorno habitado, além das questões ligadas à estética, antiguidade e identidade. A espacialização das relações sociais que objetivam práticas de con- sumo cultural (material ou não) está fortemente relacionada ao conceito de lugar. Tal conceito possui um tratamen- to teórico que evidencia certas sutilezas que ora recuperamos de maneira breve. Para Augé 6 , esse termo refere-se à “(...) construção concreta e simbólica, que não poderia dar conta, somente por ela, das vicissitudes e contradições da vida social, mas à qual se referem to- dos aqueles a quem ela designa um lu- gar(...)”. Esse lugar constitui um elemen- to de sentido para quem nele habita e contribui para a capacidade interpreta- tiva dos seus observadores, o que enca- minha a constituição das características fundamentais associadas aos lugares para autor: pretenderem-se identitários, relacionais e históricos. Identitário, pois “nascer é nascer em um lugar” 7 , o que é elemento de constituição da identida- de; relacionais, já que “em um mesmo lugar” podem existir elementos distin- tos e singulares em uma configuração instantânea de posições e históricos, pois “o habitante do lugar antropológi- co não faz a história, vive na história 8 ”. Nesse sentido, para Pesavento 9 , nesta história, formadora de memória cívica “(...)características e valores são postos em destaque, enquanto que outros tantos atributos são, deliberadamente, desconsiderados, como se não tives- sem importância ou se jamais tivessem existido. A memória social tornada cole- tiva é o momento ápice do processo de anamnese, determinado pela vontade de lembrar, pela intenção de reter no presente o que se passou no passado e transmiti-lo ao futuro(...)”. Ensina a autora: “(...)este ainda é o momento da sacralização da memória, da sua con- versão em patrimônio de um grupo, como herança a ser transmitida. Esta- ríamos diante de certos eventos, ato- res, ações sobre os quais é construída uma ritualização que, através de cele- brações, do erguimento de estatuária comemorativa ou da identificação de monumentos no espaço construído, visa a integrar os indivíduos a uma filia- ção identitária precisa(...)”. Esse argumento nos remete à obra de Certeau, a qual contempla o argumento de que o lugar é a forma de ordenação que tomam os elementos nas relações coexistentes, indicando uma “configuração instantânea de posi- ções”. Já o espaço está relacionado aos movimentos que se desdobram a partir da configuração dada, produzidos como efeito das operações que o orientam (dotados de poder que o circunstancia e temporaliza). Segundo o autor, o “es- paço estaria para o lugar como a palavra quando falada”, o que confere às pra- ticas humanas a constituição espaço. Na acepção de Certeau, as táticas que promovem uma reinvenção da cons- trução do cotidiano são elementos que formam o lugar, formando assim o con- ceito de lugar como espaço praticado. O sentido de formação dessas práticas é o cotidiano, com suas particularidades e táticas que podem burlar a uniformiza- ção de um lugar, subvertendo as formas de consumo demassa determinadas por modelos impostos pela maneira como os lugares se estruturam. Para o autor, tratam-se das “astúcias, muitas vezes, minúsculas da disciplina”, que se confi- guram como procedimentos “multifor- mes, resistentes, astuciosos e teimosos” que não se submetem à disciplina sem estarem excluídas do campo onde a re- ferida disciplina é exercida.

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