36 URBE | # 01/04 | CARTOGRAFIAS URBANAS Em Petit Poa, 2011 gabriela silva Eu não sei quando comecei (começa- mos) a usar Petit Poa como um apelido da nossa cidade. Gosto da brincadeira, da metáfora desse espaço planificado cujos pequenos pontos estão todos ali e nunca se encontram, parecendo-se mui- to com esse lugar onde vivemos, fonte de tantos grupos ou ações, mas que ra- ramente se cruzam. Talvez, em épocas de redes sociais, as quebras desses pon- tos afastados sejammais frequentes, até mesmo pela necessidade de interagir e de trocar, pois esse apelido é também uma forma de falar sobre o tamanho da cidade, que apesar de bradar orgulhosa ser o centro de muitos mundos (e pode ser para alguns de seus habitantes), é uma pequena província ao sul do país. Porém, é como muitas outras urbes es- palhadas por aí, um centro de produção intelectual e artística de qualidade, ce- leiro que acaba por exportar muitos de seus bons por essa sua pequenez e por ser, equiparada a outras, menos intensa no reconhecimento e no consumo do que se produz aqui. A verdade é que não vivemos em um grande plano. Petit Poa é esse lugar de situação geográfica de corre- dores. Entre um lago (chamado de rio) e morros. E entre a cidade e suas àguas está um muro, principal construção ur- bana que desmonta esta apropriação do corpo da cidade. Construído depois de uma enchente, em 1941 1 , a tragédia não se repetiu, mas dizem que o muro evitou algumas cheias. Já existe tecno- logia suficiente no mundo para que ele seja substituído, mas entre investimen- tos e intenção do poder público, vamos esperar mais um tempo para vê-lo fora dali. Não sei quando a ideia de torná-lo mais aprazível à vista veio, mas lembro de duas intervenções mais recentes em que se pensou o muro como um espaço de arte pública, uma em 2002, quando foi suporte para artistas deixa- rem suas marcas durante o Fórum So- cial Mundial 2 e, em 2008, quando teve intervenção de turmas de escolares 3 . Na tentativa de humanizá-lo, mantém-se o divórcio com as águas, só celebradas por quem vive na zona sul da cidade ou nas suas ilhas 4 . Patrimônio e (im)permanência Aqui, estão atravessadas a permanência de um muro (polêmico) e a imperma- nência causada pelo seu desenvolvi- mento urbano. A cidade que eu mesmo conhecia já não existe, é como se repe- tisse o que ouvi dos meus avós e até dos meus pais sobre essa memória de uma cidade que não existe mais. Assim anda- mos com um mapa mental que precisa de secções entre o que estava e não está mais ali. O desenvolvimento mudou a estrutura da cidade com a adaptação às novidades e às necessidades da popula- ção, com mais um anel viário, viadutos, boa parte em períodos em que não se ti- nha a noção de preservação patrimonial que temos hoje ou de iniciativas, como o projeto Monumenta 5 , que se organizam por meio de instituições públicas para preservar o que sobrou do nosso patri- mônio material (e que se legitimaram no fimdo século passado). Eu percorria com frequência o eixo 24 de Outubro-Centro quando morava no bairro Auxiliadora, onde até hoje minha família mora. Ainda estavam ali os casarões da Mostardeiro. Algumas primas ainda resistem no meio de prédios mais abastados do bairro Moinhos de Vento. Eram parte do enten- dimento da existência de umpassado da cidade, domeu trajeto de volta para casa quando vinha do Centro. Chorei em des- pedida quando a última se foi ao chão para ser trocada por um prédio genérico de janelas verde-espelhadas. Essa subs- tituição do patrimônio por novidades é, aos poucos, freada no centro da cidade, desde que uma nova onda urbanística
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