43 URBE | # 01/04 | CARTOGRAFIAS URBANAS cuperar os valores e as simbologias do passado de nossas cidades, mas sufoca- dos por intervenções desastrosas. A ideia de que toda forma de ma- nifestação artística é válida não pode ser considerada quando nos referimos à construção do espaço público. Tan- to intervenções arquitetônicas quanto urbanas e artísticas devem obedecer a critérios específicos, visando ao incre- mento da qualidade de vida de seus usuários. O fim de qualquer uma dessas intervenções é sempre o mesmo: o ho- mem que habita a cidade. Nesse sentido, devemos pensar a arte e a arquitetura de maneira con- junta, a fim de construir espaços dentro da escala humana e que despertem a curiosidade e a sensibilidade do ho- mem contemporâneo. Nossas cidades estão aí. Esperando por intervenções artísticas de qualidade dentro de seu processo de requalificação. Porto Ale- gre está aí. Os paredões de nossos edifí- cios chamam por artistas sensíveis que saibam, por meio de suas intervenções, valorizar o que já temos de belo. O se- gredo é ser capaz de ler as páginas do livro aberto a sua frente, interpretar as informações com sensibilidade e final- mente saber escrever as palavras certas para dar novamente sentido a uma fra- se atualmente feita de palavras soltas. Não é um trabalho fácil. Entretanto, se você for capaz de fazê-lo, mãos à obra! Porto Alegre agradece! já existentes. O limite entre essa valori- zação e a invasão é tênue, mas faz toda a diferença na obtenção de um resulta- do positivo ou negativo da intervenção proposta. A arte deve dialogar com os espaços, e não concorrer com eles pela atenção do público. A situação na qual a proposta ar- tística é elaborada também pode afetar a sua concepção. Obras de arte, cujo período de exposição é temporário, po- dem ser mais ousadas, como a interven- ção do casal Christo e Jeanne-Claude, em 1995, no prédio do Reichstag, em Berlim, onde, por um determinado pe- ríodo, o edifício foi “empacotado” por tecidos especiais. Nesse caso específico, após o período expositivo, os tecidos foram retirados e a edificação passou por uma grande obra de restauração e adaptação interna. Essa ação, além de promover uma manifestação artística específica, também foi utilizada como O equipamento urbano tradicional, como tampas de bueiro, cabines telefônicas, postes de iluminação pública e lixeiras, entre outros, são muitas vezes produzidos de forma aleatória, sem um projeto que os insira harmoniosamente ao meio ambiente urbano forma de chamar a atenção mundial para o início das obras de recuperação do prédio. Já em situações em que a obra de arte será perene, ou seja, ficará por anos em exposição em praças ou outros espaços públicos, torna-se neces- sária uma maior discrição, respeito, e/ou interação com o entorno existente. O discernimento entre arte e ar- quitetura nem sempre existiu da forma como vemos nos dias atuais. Em tem- pos passados, o projeto arquitetôni- co de uma nova edificação, ou de um espaço urbano, era carregado de ele- mentos artísticos, que eram concebidos simultaneamente com harmonia e cri- tério. Essa antiga metodologia de con- cepção foi interrompida, com algumas exceções, pelo pensamento dos arqui- tetos modernistas, que valorizavam, em primeiro lugar, a função das edificações propostas. Hoje, através de nossas in- tervenções, muitas vezes, tentamos re- Eduardo Hahn é arquiteto urbanista com especialização em Restauração Arquitetônica no Centro Europeu de Restauro (2008 - 2010), em Florença, e Diretor do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado do Rio Grande do Sul (Iphae) Imagens: http://markbattypublisher.com/books/ drainspotting-book/ Livro: Drainspotting: japanese mainhole covers Autor: Remo Camerota
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