8 URBE | # 01/04 | CARTOGRAFIAS URBANAS A arte da transvenção Alinhado a diversas outras ações cria- tivas que acontecem em muitas cida- des, a Nômade Ind. começou o pro- jeto Estante Pública em Porto Alegre (www.estantepublica.com.br) . Intuitiva- mente, a proposta, desde o seu início, es- tava conectada com os pontos comen- tados anteriormente. A Estante Pública parte de uma vontade e certeza de que é possível inventar no urbano. Essa ca- racterística é presente em todas as pes- soas que atuam na rua de maneira cria- tiva, pois a duração da sua ação não é garantida. Na verdade, a única certeza é a transformação. Nesse sentido, uma primeira característica importante para agir na cidade de forma autônoma e inventiva é trabalhar o estado de espí- rito do desapego. Para, assim, conse- guir tolerar a frustração de ter sua obra alterada ou destruída. Dentro de uma perspectiva con- temporânea de cultura como possibi- lidade de inovação social, temos que fazer um recorte naquelas propostas que estão comprometidas com a aber- tura de possibilidades e não para ape- nas gritar outras novas velhas verdades absolutas. Neste momento, podemos identificar claramente a diferença que o conceito “transvenção” pretende mar- car com a sua prática. O “trans” pressu- põe o cruzamento de diferenças, nesse sentido, uma transvenção não imprime uma única verdade, mas constrói possi- bilidades de interação e diálogo. A rua segue sendo um espaço de expressão para qualquer tipo de manifestação, porém podemos diferenciar iniciativas com objetivos de contestação, ou pu- blicidades baratas, daquelas que estão direcionadas para a colaboração e fun- cionalidade comunitárias. Geralmente, tais ações não acon- tecem sozinhas e precisam do engaja- mento social para permanecerem ativas. É o caso da Estante Pública que só existe a partir do momento em que consegue cativar pessoas em seu entorno para par- ticipar e cuidar dela. A Estante Pública não recebe nenhum tipo de zeladoria por parte do seu criador inicial, ela se estabe- lece coma colaboração dos seus usuários cotidianos, que imprimem sobre ela sua ética de relação com a cidade. Uma Es- tante Pública pode ser um termômetro de autogestão em umbairro, pode medir a capacidade que este possui de manter uma organização coletiva. Daniel Muller Caminha

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