14 URBE | # 03/04 | FOBIAS URBANAS Sobre medianeras, fobias e comunidades CAROLINA EIDELWEIN Estou convencido de que as separações e os divórcios, a violência familiar, o excesso de canais a cabo, a falta de comunicação, a falta de desejo, a apatia, a depressão, os suicídios, as neuroses, os ataques de pânico, a obesidade, as contraturas musculares, a insegurança, a hipocondria, o estresse e o sedentarismo são responsabilidade dos arquitetos e empresários da construção. Desses males, salvo o suicídio, padeço de todos. Assim se apresenta Martín, protagonis- ta do filme Medianeras , uma produção independente do argentino Gustavo Taretto lançada em 2011. O filme retra- ta a capital portenha do ponto de vista de dois jovens adultos, Martín e Maria- na, que vivem encontros e desencon- tros pela cidade. Buenos Aires assume um lugar central na trama, como des- taca a fala introdutória de Martín, que atribui à vida naquele lugar – e a quem supostamente planeja os espaços ur- banos – essa lista considerável de situ- ações que informam sobre o mal-estar contemporâneo. Ambos os personagens definem- -se como fóbicos e levam a vida de for- ma solitária em minúsculos apartamen- tos, apelidados de caixas de sapato, e que possuem uma janela só. “Às vezes, as pessoas tem uma só janela em sua casa, o que as condena a um único pon- to de vista”, comenta o diretor Taretto. Na mesma entrevista, ele declara que, ao idealizar o filme, propôs-se a investigar sua própria solidão. E qual seria a relação entre as fobias e a solidão? Podemos pensar que “a fobia”, tal como aparece no fil- me, de forma difusa, seja uma catego- ria genérica para expressar um tipo de sofrimento psíquico frequente na atu- alidade, que tem relação direta com a irrupção de crises de angústia. A pecu- liaridade desse sofrimento é que ele se expressa eminentemente no corpo, e o nexo com questões psíquicas pode passar despercebido. Maria Rita Kehl (2002) nos alerta que o homem con- temporâneo quer ser despojado da an- gústia de viver e da responsabilidade de arcar com essa angústia, delegando à competência médica e às interven- ções químicas a esperança de eliminar a inquietação que o habita. Essas crises se apresentam em si- tuações ou momentos de vida em que, por algum motivo, nos vemos diante de nossa condição de desamparo, também adjetivado como desamparo fundamen- tal, a que Freud nomeou Hilflosigkeit . É o que nos constitui como humanos, embora não estejamos completamen- te convencidos nem tenhamos plena capacidade de simbolizar e de elaborar essa nossa condição – e é exatamente por isso que somos impelidos a viver, produzir e criar. O psicanalista Mário Eduardo Costa Pereira, autor de um estudo psi- canalítico sobre pânico e desamparo, afirma que “o sujeito com pânico an- seia pela presença concreta de um fia- dor que garanta a estabilidade do seu mundo”. Diante da falta de garantias que caracteriza nossas vidas – não há nenhuma autoridade para decretar o certo e o errado – o sujeito panicado busca encontrar modos de apreender no corpo o trauma desse desamparo, numa experiência que por vezes se aproxima do enlouquecimento e da

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