17 URBE | # 03/04 | FOBIAS URBANAS lhões. O desafio de encontrar Wally na cidade para ela permanece insolúvel. Kehl nos indica que, apesar do sen- tido da vida não estar dado por nenhuma verdade transcendental namodernidade, é ilusório pensar que essa criação de sen- tido para a nossa existência seja um ato individual. Trata-se de uma tarefa coleti- va, da cultura, da qual cada um participa com um grão de invenção, segundo a autora. Em Medianeras , ambos os per- sonagens dizem-se fóbicos em recupe- ração. Parece que, na película, a narrativa vai se constituindo em elaboração, em implicação dos personagens naquilo que lhes ocorre – não apenas enquan- to uma psicopatologia que os acome- te, como algo que lhes vem do exterior. Quando chega a esperada primavera, no filme, os personagens tomam a decisão de abrir básculas em suas casas – e em suas vidas. Abertura que se dá pelas me- dianeras, aquelas que dão nome à obra. Descritas como o lado inútil de todos os edifícios, o lado que não dá para a frente nem para os fundos, as medianeras se- riam superfícies a refletir a inconstância, as rachaduras, as soluções provisórias, os anúncios publicitários e o desamparo, talvez. Então, a certa altura do enredo, essas paredes esquecidas transformam- -se em saídas, em vias de escape. “Em clara contravenção às normas do plane- jamento urbano se abrem umas minús- culas, irregulares e irresponsáveis janelas que permitem que alguns milagrosos
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