18 URBE | # 03/04 | FOBIAS URBANAS CAROLINA EIDELWEIN raios de luz iluminem a escuridão em que vivemos”, reflete Martín. Intitulada Usuário , a obra de Alex Hornest habita uma medianera na Rua Andrade Neves, no centro de Porto Ale- gre. De imediato, faz lembrar um per- sonagem kafkiano. Meio gente, meio inseto, pousado num lugar insólito, uma figura pálida chapada em fundo pre- to – na escuridão? Esse nome, usuário, coroa de forma contundente a força da imagem. Usuário, do latim usuarius , é o que possui ou frui alguma coisa por di- reito que provém do uso; também se di- zia do escravo, de que só se tinha o uso e não a propriedade. Usuário remete a quem utiliza serviços, redes de internet, substâncias e tambémpolíticas públicas. Seríamos nós usuários da cidade? Que relação estabelecemos como espaço ur- bano? Uma relação estritamente de uso? Em nosso cotidiano, se fizésse- mos um passeio exploratório, se lan- çássemos um olhar estrangeiro – e se levássemos Kafka conosco? – não seria difícil depararmo-nos com a angústia, a solidão, a impessoalidade, a burocracia e a alienação tão peculiarmente escritas pelo autor, também na cidade em que vivemos. Durante o dia, o trânsito frené- tico, agendas conflitantes, o estaciona- mento lotado, os espaços disputados, os equipamentos todos conectados. À noite, televisores ligados, portas tran- cadas, bares fechados, ruas vazias, bala- da segura sem transporte público, equi- pamentos todos conectados. Afora isso, todo o debate presente na mídia e nas redes sociais sobre cercar ou não cercar parques, instalar ou não instalar câme- ras de segurança, a defesa do “acolhi- mento compulsório” da população que vive na rua, da instalação de unidades policiais de pacificação e de interven- ções nas ditas cracolândias país afora. Fotos: Rizoma Films | Medianeras
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