URBE | # 03/04 | FOBIAS URBANAS nos apontam: que a linha de fuga faz parte da própria máquina. Para eles, o problema não é de modo algum ser li- vre, mas encontrar uma saída, ou então uma entrada, ou então um lado, um corredor, uma adjacência... Ou seria uma medianera? Ponderam que Gregor se torna barata, em A Metamorfose , não apenas para fugir de seu pai, mas para encon- trar uma saída onde seu pai não a sou- be encontrar, para fugir do gerente, do comércio e dos burocratas, para atingir uma região onde a voz apenas murmu- ra. Uma saída, e não “liberdade”, ressal- vam os autores. Essa saída não consiste de modo algum em fugir, ao contrário, é afirmada como fuga no mesmo lu- gar, fuga em intensidade. “Foi o que fiz, esquivei-me, não tinha outra solução, já que tínhamos descartado a da liberda- de” é a fala de Gregor. Ou seja, é de dentro mesmo das engrenagens que podemos encontrar saídas, pequenas que sejam, no sentido da afirmação da vida. Os exemplos são muitos. Às vezes, tímidos. Silenciosos, até. Uma bicicleta rosa-bebê no movi- mentado cruzamento de duas avenidas, com a singela placa no cestinho: “mais amor, menos motor”. O semblante da “Nossa Senhora da Consciência Altera- da” na parede de um prédio. Diversos movimentos têm surgido com o objeti- vo de pensar e pôr emprática ações para a melhoria da vida nas cidades, agregan- do participantes pela internet e propon- do a gestão colaborativa dos projetos. Em Porto Alegre, colocar adesivos com informações sobre as linhas de ônibus, organizar serenatas com o propósito de frequentar os parques à noite, propor mutirões de limpeza da orla do Guaíba, criar plataforma virtual que possa auxiliar na hora da escolha dos candidatos nas próximas eleições, confeccionar vídeos que explicitem os buracos nas ruas, exibir curtas no Arroio Dilúvio, debater sobre a carona como alternativa de mo- bilidade urbana são algumas das ideias noticiadas ultimamente. Os movimentos Occupy, manifes- tações de maior vulto que ganharam o mundo em2011, tambémvêmdestacan- do a importância da mobilização coletiva e da união dos corpos no espaço público. As intervenções urbanas, as instalações, os grafites interpelam a quem passa pe- las ruas. Se pudermos escutar as paredes, teremos certeza de que muitas outras vozes falam em nossa cidade. E que não estamos necessariamente sós. Referências DELEUZE, Gilles e GUATARRI, Félix . Kafka: Por uma literatura menor . Rio de Janeiro: Imago Editora, 1977. KAFKA , Franz . Narrativas do Espólio . São Paulo: Companhia das Letras, 2002. KEHL, Maria Rita. Sobre ética e psicanálise . São Paulo: Companhia das Letras, 2002. Novo Dicionário da Língua Portuguesa Candido de Figueiredo , 1913. PELBART, Peter Pál. Vida Capital: Ensaios de biopolítica . São Paulo: Iluminuras, 2003. PEREIRA, Mario Eduardo Costa. Pânico e desamparo: um estudo psicanalítico . São Paulo: Editora Escuta, 1999. Nós que passamos apressados Pelas ruas da cidade Merecemos ler as letras E as palavras de Gentileza. 21 Carolina Eidelwein é psicóloga, integrante do INTERVIRES: loucuras em rede, grupo de pesquisa do Programa de Pós-graduação em Psicologia Social e Institucional da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

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