CAROLINA EIDELWEIN 20 URBE | # 03/04 | FOBIAS URBANAS com seus iguais acordos e acordes, mes- mo fugidios. Afirma que a comunidade dos celibatários é a do homem qualquer e de suas singularidades que se cruzam: nem individualismo, nem comunialismo. Pelbart percorre diferentes con- ceitos, nomes diversos para uma figura não fusional, não unitária, não totali- zável e não filialista de comunidade. Trata-se, segundo ele, de pensar o co- mum ao mesmo tempo como imanen- te e como construção. Ou seja, por um lado ele já está dado, a exemplo desse comum biopolítico de que falávamos anteriormente e, por outro lado, está por construir, segundo as novas figuras de comunidade que o comum, assim como é concebido por ele na esteira de outros autores, poderia engendrar. Indica uma possibilidade de descobrir comunidade lá onde não se via comunidade e não necessariamente reconhecer comunidade lá onde todos veem comunidade, não por um gosto de ser esquisito, mas por uma ética que con- temple também a esquisitice e as linhas de fuga, novos desejos de comunidade emergentes, novas formas de associar- -se e dissociar-se que estão surgindo, nos contextos mais auspiciosos ou desespe- radores. (Peter Pál Pelbart, 2003) É o que Deleuze e Guattari, ao escreverem sobre o autor em Kafka: por uma literatura meno r, também Peter Pál Pelbart, filósofo docen- te na PUC-SP, nos aponta que é trivial a constatação evocada por diversos pensadores contemporâneos – entre eles, cita Toni Negri, Giorgio Agamben, Paolo Virno, Jean-Luc Nancy e Maurice Blanchot – de que vivemos hoje uma crise do “comum”. Isso porque as for- mas que pareciam garantir aos homens um contorno comum e asseguravam alguma consistência ao laço social en- traram em colapso tanto na esfera dita pública quanto nos modos consagra- dos de associação: comunitários, nacio- nais, ideológicos, partidários, sindicais. Temos nos deparado com o que ele chama de espectros do comum: a mídia, a encenação política, os consensos eco- nômicos consagrados e a militarização da existência para defender uma forma- -de-vida dita “comum”. Mas adverte que esta forma-de-vida não é realmente “co- mum”, pois se trata de uma expropria- ção do comum sob formas consensuais, unitárias, espetacularizadas, totalizadas e transcendentalizadas. Peter sustenta que, na verdade, é preciso desconfiar dessa consciência retrospectiva da per- da da comunidade e da sua identida- de, porque ela acompanha o Ocidente desde seu início. Essa tal comunidade, de comunhão, unidade e copertinência nunca existiu. Afirma que a comunidade tem por condição precisamente a hete- rogeneidade, a pluralidade e a distância. Na contramão da nostalgia fusional, ela é feita de interrupção, fragmentação, sus- pense, é feita de seres singulares e seus encontros. Define comunidade como “o compartilhamento de uma separação dada pela singularidade”. A uma moral da salvação e da ca- ridade, o filósofo, contrapõe uma mo- ral da vida, em que a alma só se realiza pondo o pé na estrada, exposta a todos os contatos, sem jamais tentar salvar outras almas, desviando-se daquelas que emitem um som demasiado auto- ritário ou gemente demais, formando
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