23 URBE | # 03/04 | FOBIAS URBANAS Porto Alegre é uma das capitais brasi- leiras com o maior número de obras de arte públicas do país. Nos últimos anos, a Bienal do Mercosul, principalmente, tem contemplado a cidade com inter- venções efêmeras e permanentes de importantes artistas contemporâneos brasileiros e estrangeiros. Desde sua pri- meira edição, em 1997, realizou o Jar- dim de Esculturas no Parque Marinha do Brasil; na quarta, em 2003, ofertou a obra Supercuia , do artista Saint Clair Ce- min; na quinta edição, em 2005, monu- mentais obras na orla do Guaíba de Car- mela Gross, José Resende, Mauro Fuke e Waltércio Caldas foram construídas; na sétima edição, em 2009, a instalação do artista plástico Henrique Oliveira, que ficou popularmente conhecida como A Casa-monstro , despertou também a reação do historiador Voltaire Schilling, em artigo publicado no jornal Zero Hora sob o título “A Capital das Mons- truosidades” (ZH, 25-10-09), em que classificou tal obra de um tumor que, inchado, é expelido pelas aberturas da construção e vem se mostrar aos olhos dos passantes, tal como se fora um ab- dômen de umcanceroso recém-aberto pelo bisturi de um cirurgião. Na oitava Bienal, em 2011, entre as diversas inter- venções do projeto curatorial Cidade Não Vista , o artista japonês Tatzu Nichi suspendeu um prosaico dormitório em frente ao edifício mais importante da ci- dade – a Prefeitura Municipal – levando milhares de pessoas a elevar sua per- cepção diante da vista aérea do centro histórico, enquanto a cama do artístico quarto desafiava a paisagem urbana que não dorme. No entanto, torna-se inevitável dizer que a situação das obras de arte públicas em Porto Alegre, tanto os mo- numentos cívicos como aquelas con- temporâneas instaladas recentemente, encontram-se, em sua totalidade, em si- tuação de manutenção precária, quan- do não em estado de total abandono. Também é necessário observar como temos aversão a estes lugares abandonados. No entanto, o medo que sentimos é uma reação fisiológica à de- gradação urbana que nos cerca e ame- aça cada vez mais. Parece-nos, neste contexto, que o tema Fobias Urbanas vem a se rela- cionar com a arte pública, onde estão em jogo os conflitos paisagísticos nas metrópoles contemporâneas – cidades incontroláveis, que se proliferam e mul- tiplicam desordenadamente –, objetos de interesses políticos na (des)ocupa- ção do espaço urbano, motivado, prin- cipalmente, pela inculta especulação imobiliária, da valorização artificiosa do solo por este setor, e da inversão destes valores na construção civil. Henri Lefebvre (1901-1991), em seu clássico O Direito à Cidade , refere-se Foto de André Venzon sobre instalação de Tatzu Nichi Foto de André Venzon, Cidade Vista
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