24 URBE | # 03/04 | FOBIAS URBANAS ANDRÉ VENZON aos mercadores italianos, flamencos, ingleses e franceses, que amavam sua cidade como a uma obra de arte, or- nada por todas as obras de arte. Discí- pulo de Lefebvre, Mario Gaviria (1938-) reflete sobre o conceito de obra do autor francês, tal qual a apropriação da cidade como obra pelo habitante urba- no, que considerava a cidade como obra total, a mais bela obra de arte da história da humanidade. Podemos ir mais longe e pensar até mesmo que a obra de arte precede a cidade, pois desde as cavernas o homem convive com alguma expres- são estética em seu espaço social. Há sé- culos, nos organizamos em torno de um espaço central que tem, não raramente, como seu primeiro habitante ummonu- mento, uma estátua, enfim, uma obra de arte pública. Porém, atualmente, parece que vi- vemos o contrário. Num outro cenário, o de vandalização da arte pública, deparan- do-nos diariamente com obras que são mutiladas, pichadas, roubadas, algo que, semdúvida, reflete os conflitos sociais que ainda estão latentes sob a atual euforia desenvolvimentista brasileira. Contudo, ainda preferiremos a pichação a uma pra- ça vazia, a uma cidade sem arte. Lefebvre também nos fala da consciência da cida- de e da realidade urbana que se atrofia até sua desaparição, e que a destruição ideológica da cidade acaba por não evitar a instituição de um enorme vazio. Acre- ditamos que esta falta de diálogo com a arte, expressa e exposta amplamente pelo vandalismo, é umproblema semelhante à falta de diálogo com a própria cidade. Portanto, que lugar seríamos sem a existência da arte urbana? Uma Suíça, aquele “cemitério de sensações”, como dizia Clarice Lispector, ou uma “Alpha- ville” vigiada de Godard? Creio que pre- feriremos uma Barcelona de Gaudí, de Almodóvar, de Woody Allen. Para não citar Londres, Paris, Roma e outras capi- tais europeias que foramberço da nossa cultura ocidental. Essa problemática ambiental foi pioneira e amplamente pesquisada por Kevin Lynch (1918-1984), autor da célebre obra a Imagem da Cidade , que também pensa as formas de percebermos ametró- Foto de André Venzon

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