28 URBE | # 03/04 | FOBIAS URBANAS neoclássico de viver” e outras pérolas da artificialidade publicitária. Nestas fortalezas contemporâneas, a socieda- de esquece que como seres humanos precisamos estar vulneráveis ao olhar do outro. E a arte é exatamente esse meio de se estar vivo para o olhar do outro. Porém, nos parece que as pesso- as desaprenderam a se relacionar pela arte, pois estão usando como platafor- ma de vida uma imagem de felicidade montada sobre o fascínio consumista, o universo da autoajuda ou o velho fa- natismo religioso, em que as próprias obras de arte perderam lugar para toda espécie de sensação medíocre e vulgar. Enquanto isso, os espaços pú- blicos de convivência, as ruas, praças e parques desaparecem sob a ameaça de diversos problemas sociais, resultantes de um sistema capitalista opressor, em que os sem-tetos, a prostituição, o trá- fico de drogas e as armas, enfim todo tipo de violência, afligem a população, principalmente, e são suas maiores ví- timas aqueles que não têm mais nada, nem a própria dignidade humana para se proteger. Diante desta realidade, perguntamo-nos: qual é o nosso lugar? Acreditamos que, como cidadãos, de- vemos atuar no espaço dessa relação entre o público e o privado, governo e sociedade, construindo um debate permanente sobre a arte e a cidade e as chances de um desenvolvimento hu- mano mais sustentável. Portanto, este debate é mais um meio para pensarmos o que a arte pú- blica pode fazer pelo espaço urbano, transformando toda espécie de espaço vazio em um espaço disponível para o exercício da nossa sensibilidade. Ainda o professor Teixeira Coelho cita as políticas culturais públicas da se- gunda metade dos anos 80 em Berlim e Dusseldorf, que mantêm um progra- ma constante de instalação de obras de arte em ruas e parques com o objetivo de desbanalizar o cotidiano e possibili- tar à população um momento de refle- xão e projeção numa outra dimensão existencial. Ou ainda um dos traços ne- cessários à plena caracterização da arte pública é o fato de oferecer-se como possibilidade de contato direto, físico, afetivo com o público. Assim afirma: que a melhor arte pública não é aquela exclusivamente decorativa (cabe men- cionar como exemplo bem-sucedido o leilão da “Cow Parade” e sua função so- cial em São Paulo e Porto Alegre), mas a que se mostra como um enigma, uma provocação ou ela mesma uma reflexão sobre a vida em geral ou sobre a vida na cidade em particular. Por isso tudo, tanto a polêmica so- bre a obra Supercuia do artista Saint Clair Cemin, junto ao Parque da Harmonia, reduto do Movimento Tradicionalista Gaúcho e sede da Semana Farroupilha, que a vê como “Supertetas”, assim como a apelidada A Casa-monstro do artista Henrique Oliveira no centro de Porto Alegre, assumem ambas contornos de genialidade ao provocarem esta discus- são pública. Desta forma, comenta tam- bém o cineasta Jorge Furtado, nem pa- rece necessário ressaltar que o simples fato de uma obra de arte ter provocado tais reações já a justifica amplamente. No caso da casa abandonada pelo poder público, um belo exemplar da arquite- tura porto-alegrense do início do século passado, que resistia invisível entre dois grandes prédios e rumava célere para o seu destino de ruína, graças à Bienal e ao trabalho de Henrique Oliveira, finalmen- te chamou nossa atenção. Já a grande explosão da arte de rua, com suas cores ácidas e flúor, di- luem o macabro da vida nas grandes cidades. Esta pintura urbana, recen- temente apresentada na mostra Me- ANDRÉ VENZON
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