29 URBE | # 03/04 | FOBIAS URBANAS André Venzon vive e trabalha em Porto Alegre. Diplomado em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e pós-graduado em Gestão de Políticas Culturais pelo Universidade de Girona/Espanha. Foi presidente da Associação Riograndense de Artes Plásticas Francisco Lisboa, vice-presidente do Conselho Estadual de Cultura e, atualmente, é membro do Colegiado Nacional de Artes Visuais/MinC e diretor do Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul. nota 1 Giulio Carlo Argan tropolitanos – A nova urbanidade em exposição , no Museu de Arte Contem- porânea do RS, é capaz de transportar- -nos de volta à praça pública, a ágora primordial. Para muitas pessoas, falta, justamente, a cidade, e a visão desta, coberta de grafite. Seria como se os seus habitantes, enfim, a percebessem – e se surpreendessem – diretamente com o inconsciente urbano. Estas pinturas sur- gem a cada novo dia como tatuagens neste corpo de concreto já marcado por diversas cicatrizes estéticas. Seus ar- tistas têm a potencialidade de criarem novos lugares em meio a ruas, avenidas e becos. Suas intervenções nos tornam mais experientes da cidade. Não olhar para elas é não querer perceber o que a metrópole nos diz atualmente. E a cidade nos fala pelos olhares de seus habitantes, artistas ou não, e suas pa- redes que edificam também são mu- rais de desejos pintados e muitas vezes pichados como gritos visuais. Vivemos em uma cidade que nos observa todo o tempo, numa paisagem que nos es- pia... O grafite, de modo geral, cria esta nova cidade, pois estes artistas criam tudo que veem. Mesmo a cidade sendo algo que, cada vez mais, nos atemoriza, esta pintura urbana e sua disseminação obscena são contrárias à paisagem tris- te das paredes cinzas e paradas. O mais espetacular na obra desses artistas urbanos é que tornam os labirin- tos das ruas e avenidas anônimas, secre- tas e proibidas, galerias expostas para sua arte. Nessa cidade que pulsa, não são con- trolados pela sociedade e pintam na face urbana como se fosse a própria cara. Es- tes artistas asseguram, mesmo de forma primitiva e ancestral, nossa criatividade humana e têm papel crucial no advento da cidade criativa. Fazem uma arte dispo- nível que está por todos os lados, como os carros e a publicidade, simplesmente urbanos e necessários. Estes artistas são o avesso da cidade que temmedo, sua arte nasce do destemido, da mais pura liber- dade de pintar a urbe contemporânea de veias abertas com todas as suas experi- ências e vivências, todos os seus delírios e inquietações, exibindo-a como o lugar onde suas criações poéticas saem dos subterrâneos da noite para ocupar a luz do dia, refletindo toda a coragem e sub- versão que os diferenciam. Temos que assumir a arte públi- ca, a exemplo destes artistas, como um direito inerente ao ser humano e que o maior trauma que podemos sofrer é não sabermos disso e sermos privados da sua fruição. Referências ARGAN, Giulio Carlo. História da Arte como História da Cidade . São Paulo: Martins Fontes, 1995. COELHO, Teixeira. A Cultura e seu contrário . São Paulo: Iluminuras, 2008. COELHO, Teixeira. Dicionário Crítico de Política Cultural . São Paulo: Iluminuras, 1997. LEFBVRE, Henri. El Derecho a La Ciudad . Barcelona: Península, V Ed, 1978. LYNCH, Kevin. Cidades – A Urbanização da Humanidade . Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1970. A obra de arte determina um espaço urbano. 1
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