33 URBE | # 03/04 | FOBIAS URBANAS químicas e biológicas, e a descoberta da bomba nuclear, cuja receita rouba- da dos norte-americanos pelo casal de espiões russos Julius e Ethel Rosenberg só fez recrudescer o risco real de em- bate entre as duas superpotências. O imaginário da época foi de tal modo permeado pela ameaça nu- clear e pelo totalitarismo que tanto a literatura quanto o cinema souberam explorar o fértil terreno das fobias em uma série de obras ainda hoje emble- máticas da atmosfera de hostilidade e perigo na qual estiveram envoltos os anos que se seguiram ao grande con- flito armado mundial. O romance de ficção científica 1984 , escrito por Ge- orge Orwell em 1948 e posteriormente transformado em filme, nos apresen- ta uma sociedade vigiada, na qual o medo desempenha papel estruturan- te, pautando a existência de homens e mulheres submetidos ao jugo do Es- tado. Reféns do Big Brother , instância maior de vigilância constante – espécie de panóptico benthaniano cuja função é “induzir um estado consciente e per- manente de visibilidade que assegura o funcionamento autoritário do poder” (Foucault, 1997:166) –, os personagens do livro se veem obrigados a abrir mão da privacidade, e o que é mais grave, de suas próprias vidas afetivas, em nome da adesão a um governo ditato- rial que tem por prática e missão, res- pectivamente, reescrever as notícias do passado e forjar uma nova língua cuja estrutura semântica impediria ma- nifestações contrárias ao regime. A passagem da “sociedade dis- ciplinar” (1997:166) concebida por Mi- chel Foucault – que encontra na lógica do confinamento seu mais sofisticado expediente – para aquela ocasião em curso na contemporaneidade, cujos mecanismos de controle são invisíveis e onipresentes, abre caminho à discussão deleuziana sobre a virtualidade dos sis- temas de vigilância e os dispositivos de poder no âmbito das esferas públicas e privadas. Uma vez que a vigilância reve- lou-se mais eficaz que a punição, e esta premissa foi introjetada pela sociedade, prescindindo dos aspectos arquitetu- rais para ser levado a termo – a saber, a escola, o hospital, a prisão etc. –, os indivíduos passaram a estar permanen- temente sob efeito disciplinar, mesmo na ausência física da autoridade. A Sociedade de Controle No centro de Hong Kong, um serial killer e um senador com sua amante são simulta- neamente fotografados ao chegarem no lobby de um arranha-céu; enquanto isso, nas ruas de NY, a mesma câmera de segu- rança que registrara dois homens fazendo sexo na noite anterior, acusa agora o trá- gico atropelamento de uma criança com síndrome de down; bem longe dali, num shopping center em Dubai, o mesmo car- tão de crédito que monitora os gastos de umaprostituta russaparaumaempresade marketing multinacional, revela o destino secreto de um exilado político a agentes do FBI. Como que extraída de um filme, a sequência acima descrita ilustra a comple- xidade da rede de informações e a veloci- dade comque as imagens são capturadas, produzindo evidências que, no limite, se verdadeiras fossem, bempoderiam levar a umgolpe de Estado. A revolução tecnológica em mar- cha nas últimas décadas não só amplia substancialmente o aparato de controle institucional disponível como torna ex- tremamente difusa a ação destes meca- nismos, lançando a mais singela rotina doméstica numa zona cinza onde as no- ções de privacidade concorrem com mo- tivações de segurança pública, tornando o medo uma reação psíquica recorrente na contemporaneidade. Entretanto, alguns episódios recen- tes apontam uma realidade nada distante da ficção. Ao passo em que ataques ter-

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