43 URBE | # 03/04 | FOBIAS URBANAS Cotidiano 2, de Erica A. Marques ther Is Watching , do ensaísta americano Walter Kirn, publicado no site do The New York Times, em outubro de 2010. Kirn volta a obra de George Orwell, 1984 , para constatar que, sim, como previu o escritor britânico, esta- mos sob constante vigia, mas não de um Big Brother , não do Estado, de um poder centralizador – isso já não há nas sociedade contemporâneas –, mas, sim, de pequenos brothers, os nossos irmãos, vizinhos, amigos, parentes, nós mesmos. Tornamo-nos controla- dores da vida dos outros. Kirn escreve: “A invasão da privacidade – de ou- tras pessoas, mas também de você mesmo, enquanto nós apontamos as nossas lentes para a gente na busca pela atenção a qualquer preço – foi democratizada” . Kehl coloca muito bem a ques- tão: “Que lugar tem a visibilidade, no mundo contemporâneo, que leva as pessoas a pagar quase qualquer pre- ço por ela?” Nos dias de hoje, não há homem se não há a sua imagem diante do outro. “Se a capacidade de pensar e duvidar garante algum tipo de acesso à verdade, se o uso da razão distingue a espécie humana de todos os animais, a atividade solitária do pensamento não garante, para um homem, sua existência entre seus semelhantes” . Há que se estar presente na imagem. Na sociedade hipertélica, qualquer coisa como “apenas ser” tornou-se obsoleta.

RkJQdWJsaXNoZXIy NjI4Mzk=