12 URBE | # 04/04 | EFEMERIDADES URBANAS nono andar me convida para entrar. Ela me conta que, da bela vista que tinha quando se mudou, há mais de 50 anos, já não resta mais nada. Tudo virou este edifício sem graça (palavras dela) com este monte de janelas que vemos a nos- sa frente. E a senhora conhece alguém do outro prédio? Pergunto. Não, tam- bém, não para ninguém nestes apar- tamentos, estão sempre se mudando. Apenas ela permanece. Uma raridade no meio da cultura do inquilinato, do movente, do fugaz. E ela, quase anacrô- nica naquele contexto, já não consegue fazer amizade com as vizinhas como fa- zia tempos atrás. Fechada em seu apar- tamento, vê o tempo passar pela janela, sendo marcado agora pelos vizinhos que vêm e que vão. Não é apenas a vista da janela que se torna cada vez mais efêmera, com o perigo eminente de uma nova constru- ção muito próxima surgir da noite para o dia, mas as relações entre os vizinhos nes- se microcosmos que os edifícios formam, também são cada vez mais passageiras. Casas onde gerações e gerações de uma mesma família passaram, deixando suas marcas e histórias por todos os cantos, parecem hoje uma realidade distante, incompatível com a cidade e seu fluxo sanguíneo, sempre corrente. Algumas relações ainda se equilibram neste con- texto, como as senhoras que se cuidam para conferir se uma e outra abriu a janela tododia demanhã. Amaioria, no entanto, parece preferir voltar os olhos para o ou- tro lado, para não ter que cumprimentar LETÍCIA LAMPERT Vista para São Paulo , Letícia Lampert
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