16 URBE | # 04/04 | EFEMERIDADES URBANAS efemeridades com pedras pontiagudas, como as que foram instaladas debaixo de um viaduto na Avenida Cristiano Machado, ligação entre o centro e a região nordeste. Diante das várias manifestações artivistas em contrário, acabei me lem- brando de que, sete anos atrás, quan- do o espaço comum em BH era menos controlado, viadutos da cidade foram mobiliados e decorados com stickers, representando cômodos como cozinha, sala de TV e quarto de criança, na inter- venção Ambientes 3 , realizada pelo cole- tivo Pão com Durex durante o 3º Fórum de Arte das Américas, em 2005. Além de abordar o problema da falta de moradia, ao conceber-se a rua como casa, resgata-se a ideia desse es- paço público como lugar de convívio e não apenas de circulação. Localizada entre esses dois territórios, a Kasa Kian- da, construída desde 2011 em diferentes pontos de BH, tem marquises como te- lhado, calçadas como piso e é mobiliada com cama, mesa, assentos e utensílios domésticos recolhidos em derivas pela cidade por seus criadores, os artistas Le- andro Acácio e Saulo Salomão, integran- tes do Obscena 4 . Pode causar estranhamento o fato de seus habitantes não aparentarem o estereótipo de moradores de rua, mas a Kasa Kianda é aberta a estes e a quem mais quiser entrar, para umcafé, umdedo de prosa, um descanso no meio da cor- reria cotidiana. Certa vez, armada na Rua Aarão Reis 5 , foi visitada por meninos que acabaram dormindo lá dentro. E aí, como desmontar a “obra”? Mais fácil é descons- truir a ideia de arquitetura, que se torna sinônimo de “(…) pertencimento e não mais uma estrutura, uma forma de conter física ou concretamente um espaço. (…) Em vez de nossos corpos se adaptarem à geometria dada realizada no espaço, o corpo produz seu mundo, suas formas, sua casa”, como observou Davi Pantuzza, outro integrante do Obscena. Mortes das casas Ressignificar a arquitetura não quer dizer desprezar o patrimônio arquitetônico de Belo Horizonte. “Beagaense” adoti- va, nasci e cresci em cidades coloniais mineiras (Sabará, Mariana e Ouro Preto), acostumada ao fato de que estragos em imóveis do século XVIII virassem notícia em rede nacional. Já na capital, debu- lhei-me (e ainda me debulho) em lágri- mas introvertidas diante de casas e até predinhos de três andares demolidos. Meu choro foi compartilhado em um velório de quatro casarões, que, mes- mo em processo de tombamento, foram derrubados na surdina, numa madruga- da de um final de semana de agosto de 2005, pela Igreja Universal do Reino de Deus, para a construção de umestaciona- mento para seu megatemplo na Avenida Olegário Maciel. As casas datavam de 1946 e re- presentavam o início da ocupação de Lourdes, bairro nobre na região centro- -sul de BH. Uma delas foi projetada por Raphael Hardy Filho, nome relevante da arquitetura moderna em Minas Gerais, embora sua assinatura não faça dessas construções mais importantes do que outras, anônimas, embairros onde ome- tro quadrado é menos valorizado. O velório das casas, realizado na noite seguinte à demolição por dezenas de pessoas, incluindo integrantes do Movimento SalveoVHS e Partidomeio, foi uma intervenção que acabou sendo chamada “A Minha Vela Apagou”, frase que encerra a fala de um dos presentes em vídeo que registra a ação 6 . Amorte das casas de BeloHorizon- te também é tema da intervenção “Era Uma Casa...”, na qual imagens das cons- truções ainda de pé foram projetadas nos tapumes dos terrenos onde seriam erguidos os edifícios que as substituirão. Fantasmas a chamarem a atenção de vi- zinhos e passantes, que não haviam tido tempo de fazer um reparo pela última vez nos imóveis, antes que fossem ao chão. O projeto, realizado pelo artista Fá- bioBatistadesdeo iníciode2011, também inclui um site 7 , com imagens de casas de- molidas captadas no Google Street View, numesforçode guardá-las antes que, com uma atualização da ferramenta, sejam perdidas para sempre. O inventário vem sendo criado de forma colaborativa, com indicações de outros belo-horizontinos de endereços de casas recém-demolidas. débora fantinI
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