15 URBE | # 04/04 | EFEMERIDADES URBANAS efemeridades gem, mas têm potência para se impreg- nar na memória de forma poética. A cada “tchau, tchau, belo” que re- pito, parafraseio minha amiga Dastenras, portuguesa que vive em Belo Horizonte há alguns anos. “Bye bye beautiful”, diz a legenda da fotografia de um inacaba- do arranha-céu com a fachada coberta de pichações, no centrão da cidade, ti- rada por ela em 9 de outubro de 2011 e publicada em seu Flickr 1 . Espécie de cartão-postal que ela deixou, aos amigos “beagaenses”, antes de uma viagem a Portugal. Em seu regresso a BH, um mês depois, o registro já se tornara histórico, pois o motivo da foto não estava mais lá. Após 30 anos largado no ostracis- mo pela especulação imobiliária, o espi- gão de 32 andares, em plena Avenida do Contorno, uma das principais da capital mineira, vai cumprir sua vocação para hotel de luxo. No entanto, nessas três décadas de abandono pelo capital que se criou o “belo” ao qual minha amiga se referia: a mais clássica “agenda” de “pixo” da cidade, com “prezas” garrafais. As pichações começaram a ser apagadas das fachadas, deixando-se apenas ler “PAVOR” no heliponto, refe- rência geográfica no skyline belo-ho- rizontino. “Apenas nos resta o Pavor”, comenta minha amiga a respeito de outra foto 2 . Pavor da gentrificação que nos persegue, tentando calar quem deseja se expressar na pele da cidade, com verniz antipichação, aplicado nas praças “revitalizadas”, no jargão urba- nístico dominante. Mas a pele de vidro que revestirá o novo velho hotel não deve ofuscar a memória daquele que, até o início de 2012, era considerado um dos maiores elefantes brancos de BH. O artista Ci- dadão Comum reproduziu fielmente, “pixo” por “pixo”, a fachada principal do prédio ainda inacabado em um estêncil, que foi aplicado em papel e grudado ao lado do próprio edifício, localizado numa área “degradada” em vias de “revitaliza- ção”. Um antimonumento ao antimo- numento, não apenas por serem, tanto os “pixos” quanto o sticker, extraoficiais, mas, sobretudo, por não terem, ambos, a pretensão de alcançar a posteridade, e, sim, o desígnio da efemeridade, sem ilusão quanto à própria decomposição. A despeito da repressão que a prefeitura e a polícia vêm adotando em relação à pichação – aproveitando-se do fato de se tratar de uma prática gregá- ria para enquadrar pichadores no crime de formação de quadrilha – segue-se traçando linhas de fuga por BH. “Teve maluco que passou lá e deixou sua presa de caneta bic no stencil!”, conta Cidadão Comum em seu mural no Facebook. A menos de cinco quilômetros dali, na Avenida dos Andradas, já na re- gião leste da capital, será construído, anunciou-se recentemente, o mais alto prédio da América Latina, com 85 anda- res, cinco vezes o número de pavimen- tos de cada uma das Torres Gêmeas que hoje ocupam o terreno. Esqueletos de edifícios, as torres ainda assim foram a moradia de 180 fa- mílias por quase 15 anos, até o despejo, em 2010, em truculenta ação da polícia, como tem sido a praxe em outras ocu- pações pela cidade – talvez tenha che- gado a Porto Alegre a notícia da prisão, em BH, do rapper paulista Emicida, após o músico ter protestado, durante um show, contra o despejo de outra ocupa- ção, Eliana Silva, a oeste da cidade. Na capital mineira, o déficit habi- tacional é de 62 mil moradias, segundo levantamento de 2011 da Companhia Urbanizadora de Belo Horizonte (Urbel), menos da metade dos 150 mil lares es- timados pelo Movimento de Luta nos Bairros (MLB). Isso abrange quase 1 mi- lhão de pessoas, parte das quais busca abrigo nas ruas, onde não são bem- -vindas pela prefeitura, que as recebe

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