20 URBE | # 04/04 | efemeridades URBANAS res e grupos de arte autônomos, que se apresentam como Ajuricaba (ajunta- mento de marimbondo), um pseudôni- mo compartilhado, como Luther Blissett. Se conseguiu enganar mídia, pre- feitura e polícia por um lado, por outro, a ação provocou a mobilização de pes- soas que “denunciaram a ação da em- presa, sentiram de certa forma que são capazes de lutar contra as forças dessas megaestruturas empresariais”, segundo afirmou Ajuricaba em entrevista ao site Ah!Cidade 16 . Também acirrou o debate, em re- des sociais e embares, sobre a flexibiliza- ção do Código Florestal, cujas alterações – como a conversão de multas para cri- mes ambientais cometidos até julho de 2008 em serviços ambientais – àquela época acabavam de ser aprovadas na Câmara dos Deputados. No âmbito lo- cal, engrossou as discussões sobre arbi- trariedades que prefeitura e vereadores vêm praticando, a favor de interesses privados, como a desapropriação de matas e a venda de ruas e mercados pú- blicos para a construção de empreendi- mentos imobiliários. Entre um tropeço e outro em to- cos de árvores cortadas pelos passeios do meu bairro, Anchieta (centro-sul), é outra placa que me chama a atenção: “Mudas: jardim e pomar. É sua, pode le- var”. A tabuleta está fixada, ao lado de vasos, alguns improvisados em emba- lagens, no muro da casa do seu Ernani Façanha di Latell, advogado aposentado de 85 anos. Tem árvores frutíferas – limão-ca- peta, graviola, jabuticaba e até pêssego – e flores – antúrio, beijinho, camarão, manacá e orquídea. E qualquer um pode pegar mesmo, não precisa nem bater. Mas seu Ernani não se incomoda se um neófito na jardinagem quiser di- cas sobre como plantar as mudas para semear seu gesto. O epíteto de “cidade-jardim” não alude necessariamente aos atributos paisagísticos de Belo Horizonte. A ex- pressão traduz mesmo é o ideário do- minante de higienização, atrelado ao de modernização, presente desde o surgi- mento da então nova capital, que subs- tituiria Ouro Preto. Na região onde Belo Horizonte foi implantada, ficava um arraial chamado Curral del Rei, nome emblemático de um passado rural não tão distante – a ci- dade completa 115 anos em 2012 – com o qual os belo-horizontinos costumam lidar de forma controversa. Ainda ouço ou leio, com frequência, BH ser chamada de “roça grande”, ora com desprezo, ora com orgulho. Mas eis que um dia as vacas liber- taram-se do curral, do rei e saíram tro- tando pelo asfalto belo-horizontino. Tão inusitadas quanto animais de verdade num ambiente urbano, as artesanais va- débora fantinI Foto: Daniel Silva

RkJQdWJsaXNoZXIy NjI4Mzk=