27 URBE | # 04/04 | EFEMERIDADES URBANAS pela proprietária para que fosse ocupa- da temporariamente. Durante aproxima- damente um mês, uma galeria de arte virtual expôs suas obras pelos cômodos, ocorrendo mais uma vez o cruzamen- to entre o digital e o “real”, já que uma galeria de arte antes só visitada virtual- mente, tinha ganho um suporte físico. Nos finais de semana, a casa abriu suas portas para as crianças participarem de oficinas de desenho e pintura com ar- tistas locais. Na segunda edição, que aconte- ceu no mês de outubro, os locatários de uma casa no bairro Petrópolis empres- taram dois quintais para as atividades do Projeto Vizinhança. Durante nove dias, várias oficinas para adultos e crian- ças, almoços coletivos, pocket shows, contação de histórias e palestras deram vida a espaços antes ociosos. Boa parte da articulação dos parceiros e mobilização da comunida- de ocorreu através do Facebook e de documentos colaborativos do Google. Sem a facilidade proporcionada por tais ferramentas, a intervenção teria seu alcance bastante limitado. A cada ima- gem compartilhada, novos interessa- dos apresentavam-se para participar da ação. Por meio de um formulário on-li- ne, foram inscritas as atividades que se- riam realizadas nos quintais. Um segun- do formulário foi disponibilizado para o cadastro daqueles que quisessem ceder seus espaços para outras edições. Ao usar o meio digital para am- pliar sua divulgação, o Projeto Vizinhança pôde atingir um público maior do que os moradores dos bairros em que foram realizadas as ocupações efêmeras. Os participantes se sentiram acolhidos pela proposta de reunir a comunidade de ma- neira simples, e demonstraram interesse em expandir para outros locais da cidade. O efêmero revisitado Vale ressaltar que nenhuma dessas in- tervenções tiveram fins lucrativos. A proposta dos grupos e indivíduos que as conceberam era oferecer aos habi- tantes um outro olhar da cidade e seus elementos, algumas vezes mais poético e artístico, outras vezes mais agregador e comunitário. Esse olhar, que no espaço físi- co durou um tempo limitado, ganhou memória permanente ao ser registrado nos meios digitais. O que foi passagei- ro ou teve fruição para apenas alguns transeuntes, tornou-se vivo e disponível a todos na web, possibilitando sua visi- tação contínua, disseminação e repro- dução, além de prolongar e maximizar a existência de uma intervenção urbana que parecia isolada e condizente ape- nas a uma cultura local. O processo criativo das interven- ções fica mais rico quando acontecem as trocas de experiências das ações urbanas nacionais e internacionais, co- nectando grupos ou indivíduos e esti- mulando novas criações ou reprodu- ções. Nada surge de uma ideia banal, mas de somatórias de inspirações e re- ferências. É indiscutível o quanto a web e suas ferramentas potencializam essas trocas de conhecimento e fomentam o surgimento de novos agentes interven- tores e/ou coletivos. A intervenção urbana física é catalisada, em sua grande magnitude, pelo meio digital, em que todas essas ações ganham outra dimensão tempo- ral e espacial. O compartilhamento vir- tual dos registros realizados pelos parti- cipantes ou observadores, enquanto as ações ocorrem, permanece depois que as intervenções findam, congelando aqueles momentos e tornando o que foi efêmero, permanente. Casa da Cultura Digital (CCD) é um espaço e rede de trabalho colaborativo que desenvolve projetos sociais e culturais em diversos pontos do país. O artigo para a presente edição da revista URBE foi escrito colaborativamente (e virtualmente) por diversos membros da CCD de Porto Alegre. A proposta da CCD POA é ser um encontro de trocas e convívio, com atividades formativas e muito tempo livre. Seus integrantes vêm participando ativamente de projetos digitais e presenciais na cidade, alguns deles de intervenções urbanas efêmeras. Referência GANZ, Louise e SILVA, Breno. Lotes Vagos 1ª ed. Belo Horizonte: Instituto Cidades Criativas ICC, 2009. notaS 1 Citação de Gilberto Gil, na época em que era ministro da Cultura, em aula magna proferida na Universidade de São Paulo (2004) 2 Citação dos pesquisadores Bianca Santana e Sergio Amadeu da Silveira, no “Seminário Internacional sobre Diversidade Cultural: Práticas e Perspectivas” (2007) 3 https://www.facebook.com/RUApoa 4 http://www.cavaleteparade.com/ 5 https://www.facebook.com/ccdpoa 6 http://projetovizinhanca.wordpress.com/
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