28 URBE | # 04/04 | EFEMERIDADES URBANAS Clarissa Eidelwein e Kellen Lazzari A efêmera arte urbana como produto e o consumo na pós-modernidade Foi-se o tempo do durável, do herdei dos meus pais essa geladeira, esse equi- pamento fotográfico ou essa máquina de escrever. Hoje, as coisas têm prazo de validade, tempo de consumo, de duração, ficam obsoletas ou simples- mente não resistem à passagem dos anos. Penso que já se pode falar em meses, estamos na era dos descartá- veis, na era do lixo – mesmo que para alguns o produto ainda funcione, esteja inteiro, tenha vida útil dentro da valida- de, simplesmente, não importa –, por- que a tecnologia apresenta algo novo, com mais funções ou apenas com um design moderno, mesmo que sejam as arestas arredondadas. Para não ser obsoleto, é neces- sário estar atento a mudanças e inova- ções. O consumismo deixou de ocorrer pela satisfação das necessidades, pas- sou pelo desejo – mais efêmero – e hoje é fundado na noção do querer, um que- rer simplesmente, sem nenhuma inten- ção subliminar, um querer instantâneo. Conforme Maria Rita Kehl (2007, p. 303), as referências produzidas através da transmissão entre as gerações perde- ram sentido sob o império da novidade, da obsolescência programada das mer- cadorias que obriga o sujeito, sempre na posição de consumidor, a renovar conti- nuamente os objetos e as atitudes asso- ciadas a eles (pois são os objetos que co- mandamnossas atitudes enãoo inverso). Vive-se como se o que importas- se fosse só o presente, no qual predo- mina o instantâneo, a velocidade das informações. A efemeridade do mundo – fala-se até no seu fim, será? – traz in- certezas, e o momento atual passa a ser o mais importante e o desejo é vivê-lo com qualidade. A preocupação pela so- brevivência impede o pensar, o refletir sobre qualquer coisa, a temporalidade faz com que o agir, o modo de ser, o querer mude constantemente, incenti- vado, muito, pela sociedade de consu- mo, que bombardeia a todo instante mensagens para consumir indiscrimi- nadamente. Kehl fala em uma socieda- de que aposta na euforia como valor agregado a todos os bens em oferta no mercado. Tem-se, então, a eterna insa- tisfação do ser humano, neste caso, do consumidor. “O caminho da loja à lata de lixo deve ser curto e a passagem, rá- pida” (Bauman, 2007, p. 108), sem re- morsos, com a predominância da cul- tura hedonista, sem estabilidade, sem passado, com possibilidades ilimitadas para o desejo, valorizando o novo em detrimento do durável. É assim que se descartam as coisas e a sede por novos produtos, por nova vida, aumenta cada vez mais. Pelo medo de ser considerado anormal, entra-se no ciclo do consumo. Mas como manter esse ciclo, essa eter- na insatisfação do consumidor, como torná-lo, sempre, disposto a enfrentar a selva do capitalismo? Para o sociólogo polonês, com o excesso de ofertas, com Glory 2 , intervenção de Slinkachu em Grottaglie, Itália, 2009 http://little-people.blogspot.com.br/

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