36 URBE | # 04/04 | EFEMERIDADES URBANAS VITOR MESQUITA O tempo nunca vem para permanecer 1 O que é efêmero, aquilo que é de pou- ca duração, transitório, o que passa ou o desejo de que queremos que passe? Pensar sobre efemeridade tem essa coisa da visão em perspectiva res- ponsável pelo futuro e de outro pelo passado. Há sempre um quarto vazio à espera. Há sempre um estado de es- pera. Uma constante expectativa para o fim. E a sensação de que também va- mos perdendo a espessura; “um vento que não sente soprar senão pela pró- pria direção” . Eis uma agonia tipica- mente urbana: negar o efêmero, mas não ao ponto de eliminá-lo, pois tudo está fora e se torna reflexo na medida em que tentamos uma rotina. A todo custo desejamos impor durabilidade ao tempo. Vive-se dentro do tempo, con- ta-se dentro do tempo. Mas ele pode permanecer em exílio por conta de não olharmos o entorno. O que há de trá- gico no efêmero é que existe em dois extremos: o início e o fim. Nada menos. Ser é estar-no-mundo... ser é ter cons- ciência do mundo 3 . Colagens de imagens efêmeras fazem parte do concreto urbano como lugares desdobrados. Lugares e antilu- gares. Imagens, peso e superfície con- correndo com as pessoas sempre “em obras”. O todo está nas paredes e as pa- redes estão no todo. É preciso olhar a cidade. Ela também possui suas efeme- ridades. A cidade nos dá signos. É um lugar onde a referência não cessa e há a possibilidade de reflexão. E o lugar? Será que é próprio da pouca du- rabilidade das coisas da nossa época o convencimento ao desejo de que elas passem? Assim, se cria a expectativa do novo. Essa expectativa – talvez empres- tada do mundo do consumo “essencial- mente urbano” que se encontra oculta no cotidiano – pode ser um lugar do fictício, do simultâneo. Uma metáfora feita por sobreposição de camadas de tempo como uma tentativa de manter por mais tempo as mesmas 24 horas. economia de expectativas: Ummal-estar urbano O modelo capitalista de produção ba- seado na propriedade (espaço) e na produção, distribuição e circulação de mercadorias (tempo) foi potencializa- do com a tecnologia. Reduziu distân- cias (comprimiu o espaço) e ampliou o lucro baseado no consumo (compri- miu o tempo). efemeridades Como é que 24 horas Às vezes parecem escorregar dentro do dia. 2

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