42 URBE | # 04/04 | EFEMERIDADES URBANAS dela se pode fazer – este será sempre o ideal transitório para todas as coisas. Lançando mão do primeiro dicionário que encontramos, lá está: “mesa: móvel comumente de madeira, sobre o qual se come, escreve, trabalha, joga etc.” 3 Esta definição, ainda que possa gerar discordâncias, se for aceita como váli- da, ajudará a sustentar a tese de que o que define uma mesa é o uso que dela se faz, e não a sua configuração ou sua materialidade – a formulação “geral- mente de madeira” nos diz que poderia muito bem ser de qualquer outro mate- rial, desde que o artefato correspondes- se ao que sobra da definição, ou seja, o uso que dela se faz. Ideal, então, será a satisfação de uma necessidade, e ideia, a solução apresentada para que se satis- faça essa necessidade. Aqueles que afirmam não ser possível determinar de antemão o uso de determinado artefato terão que con- cordar que, em se ampliando seus usos indefinidamente, ter-se-ia que, mais ou menos obrigatoriamente, a partir de certo ponto, mudar sua designação – como se faz com uma mesa de cabecei- ra, por exemplo, que naquele mesmo dicionário se grafa “mesa-de-cabeceira” e se define como “pequeno móvel, com o feitio de armário, que se tem rente à cabeceira da cama, e dentro do qual e sobre o qual se põem objetos utilizá- veis durante a noite.” 4 Essa definição se faz necessária por ser o uso dessa última levemente diferente daquele de uma apenas “mesa”. Portanto, uma mesa que fosse usada para, por qual- quer motivo, flutuar sobre a água, por exemplo, e, a partir de então, tivesse esse uso como sendo o seu definidor, deixaria de ser “apenas mesa”, e, por conseguinte, dever-se-ia ou adaptar o seu nome para algo como “mesa- -de-flutuar” ou criar-se-ia para ela um nome totalmente novo, ou, ainda, como é costumeiro fazer, empregar- -se-ia para designá-la um nome de em- préstimo, já usado para designar outro artefato, com outra configuração, mas que tivesse o mesmo uso. Talvez fosse, então, neste caso, a antiga mesa, por causa do seu novo uso, chamada de “barco”. E o ideal deste artefato seria flutuar sobre a água. FABRIANO ROCHA Foto: Fabriano Rocha
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