43 URBE | # 04/04 | EFEMERIDADES URBANAS Enquanto isso, a “apenas mesa” ideal será aquela que, sem ser material, nem ter uma configuração específica, ainda assim possua a capacidade de ser usada para a mesma finalidade que se usaria uma mesa material com qual- quer configuração. Nos termos da defi- nição do nosso dicionário, seria “móvel que, sem ser material ou ter configura- ção particular, permite que sobre ele se coma, escreva, trabalhe, jogue etc.” Quando se pensa na efemerida- de das cidades e no infindável ciclo de materialização e desmaterialização dos espaços urbanos, os problemas do ideal e da imaterialidade se introduzem natu- ralmente. À tendência natural à desagre- gação que desafia as iniciativas de pro- longar a permanência e a durabilidade da matéria urbana somam-se a violência, a delinquência e o vandalismo, que esca- pam a toda tentativa de controle estatal, inviabilizando qualquer pretensão de se concretizar uma cidade ideal. Amplian- do a formulação de Flusser ao ponto de abarcar a cidade toda – incluindo as me- sas que porventura se fizerem presentes – ela sugere que jamais viveremos fisica- mente em uma cidade ideal. A fim de verificar se é mesmo as- sim, enfrentemos o problema de saber o que seria uma cidade ideal. Começaremos buscando uma de- finição de “cidade”. Na Wikipédia, é pos- sível encontrar definições mais atualiza- das do que no nosso velho dicionário: A cidade é um habitat humano que permite que pessoas formem relações umas comas outras emdiferentes níveis de intimidade, enquanto permanecem inteiramente anônimas. 5 E também: (...) estruturamaterial e conceptual, com dimensionamento e dinâmica próprios, que estrutura aglomerações populacio- nais, conferindo-lhes um sentido, uma função e uma finalidade. 6 Sendo assim, desde o ponto de vista da finalidade, poderemos aceitar que a cidade ideal, materializada ou não, será preferencialmente um espa- ço de relacionamentos – afinal, tudo na cidade parece existir para favorecer ou impedir relações. Entretanto, a cidade física cons- tantemente recomenda a fuga como alternativa à dura realidade: fuga para as férias, para casa, para o virtual. Curio- samente, espaços relacionais virtuais (espaços de relações desmaterializadas) tipo Facebook e afins se constituem, re- velando as mesmas problemáticas das relações físicas, pelos mesmos motivos que se constituem as cidades. O mundo virtual deixa de ser imaginação e se mostra tão real quanto o mundo material. Para Hannah Arendt (se ela tivesse tratado do assunto), seria provavelmente um “artefato condicio- nante da mundanidade da existência humana”, algo como um enclave vir- tual da vida pública no espaço priva- do concreto, repleto de divergências, violências, isolamentos, silêncios, into- lerâncias e, claro, repleto também do contrário disso tudo. Enquanto para Flusser, um sítio virtual de relacionamento não será ima- terial, será, sim, um espaço de relações desmaterializadas – relações que, para Bauman, se tornam descomprometidas pela liquidez do tempo presente 7 . Se- riam, assim, os espaços virtuais de rela- cionamento, embriões de cidades des- materializadas, igualmente suscetíveis à efemeridade que assola a urbe material. Pela ótica idealista, uma cidade seria, antes de tudo, apenas uma “for- ma” passível de materialização. Dessa afirmação, decorre-se que a cidade ideal, seja qual for a sua configuração, ou materialização, seria primeiramente imaterial e, por não ser mais que um ideal, essa cidade se revelaria pelo me-

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