44 URBE | # 04/04 | EFEMERIDADES URBANAS lhor uso que dela se fizesse, ou seja: pela satisfação que pudesse propor- cionar aos seus cidadãos. Aceitar que existe uma ideia anterior à constituição de uma cidade é o mesmo que aceitar que a cidade é a materialização das re- lações potenciais dos futuros cidadãos, e que o aspecto imaterial da cidade será o resultado daquelas mesmas rela- ções. (Dizer que uma cidade não é mais que uma forma a ser materializada, não define o que é uma cidade, posto que, do mesmo modo, qualquer artefato, descartadas as suas diferentes configu- rações e possíveis materializações, não é, igualmente, mais do que possibilida- des de uso.) Por que, então, os indivíduos ten- dem a materializar espaços de relação? Enquanto o cinema e a literatura têm com frequência exibido assustado- ras possibilidades de uso para os espa- ços virtuais, a resposta para os espaços materiais, segundo Bauman, foi apre- sentada já no século XVIII: Mais de dois séculos atrás, em 1784, Kant observou que nosso planeta é uma esfera, e extraiu conseqüências desse fato reconhecidamente banal: como permanecemos na superfície dessa esfera e nela nos movemos, não temos outro lugar para ir e portanto estamos destinados a viver para sem- FABRIANO ROCHA pre na vizinhança e companhia de outros. A longo prazo, manter a dis- tância, que dirá ampliá-la, está fora de questão: nosso movimento em torno da superfície esférica acabará redu- zindo a distância que pretendíamos alargar. E assim die volkommende bürgeliche Vereinigung in der Mens- chengattung (a perfeita unificação da espécie humana por meio de uma cidadania comum) é o destino que a Natureza nos reservou ao nos colocar na superfície de um planeta esférico. A unidade da humanidade é o derra- deiro horizonte de nossa história uni- versal. Um horizonte que nós, seres humanos, estimulados e guiados pela NOTAS 1 Flusser, Vilém. Omundo codificado: por uma filosofia do design e da comunicação . São Paulo: CosacNaify, 2007, p. 23. 2 Flusser, Vilém. Omundo codificado: por uma filosofia do design e da comunicação . São Paulo: CosacNaify, 2007, p. 32. 3 Dicionário Aurélio Básico da Língua Portuguesa . Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1988, p. 150. 4 Dicionário Aurélio Básico da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1988, p. 150. 5 In http://pt.wikipedia.org/wiki/Cidade, acessado em 10/11/2012. 6 In http://pt.wikipedia.org/wiki/Cidade, acessado em 10/11/2012. 7 Bauman, Zygmunt. Amor líquido . Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004. 8 Bauman, Zygmunt. Amor líquido . Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004.
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