7 URBE | # 04/04 | EFEMERIDADES URBANAS Agora venha ver este lado: a gente já não tinha vista para o nascente, mas veja o novo telhado que apareceu; pois bem, agora o sol da manhã chega meia hora depois. fica o rio? Onde nasce o sol? Tem uma serra naquela direção... ou seria para o outro lado? Desnorteados e desconec- tados da natureza, é a programação da TV que passa a anunciar as horas do dia. Assim como a paisagem se dis- solve, a ideia de vista, de vista da janela, vai perdendo o sentido também. Mes- mo que ela tenha sido posicionada cui- dadosamente no momento da constru- ção, com o objetivo de dar ao morador uma bela paisagem, pontos turísticos ou marcantes da região, nada impede que, de uma hora para a outra, sua vista seja tapada por outro edifício. A menos que você, precavido, já tenha compra- do o espaço aéreo do terreno vizinho. É a especulação imobiliária que torna o que antes parecia coisa de religiões du- vidosas, vender terreno no céu, questão protegida por lei, que pode ser inclusive assinada e lavrada em cartório. Na série Vista para , que até o mo- mento foi realizada em Florianópolis, Porto Alegre, Buenos Aires e São Paulo, a impossibilidade de enxergar além de alguns poucos metros, que é dividida pelas janelas fotografadas em cada uma das cidades, confunde a memória, ou a ideia que temos do lugar, fazendo com que dificilmente consigamos identificar a qual cidade pertence cada conjunto de imagens. O único detalhe que de- nuncia a localização é a legenda, dado que se torna incongruente se levarmos em consideração o que a imagem de Vista para Florianópolis , Letícia Lampert fato está mostrando. Na verdade, o que as fotografias sugerem é uma vista que, um dia, existiu. Hoje, tapada, escondida, é uma vista que já não se pode mais ver. Soterrada pelo concreto, foi relegada da visão ao âmbito da imaginação, ou da memória dos antigos moradores que um dia puderam apreciar alguma paisa- gem daquele ponto. Esta antiga vista, possivelmen- te bela (já mal consigo imaginar como pode ter sido), é hoje um feio paredão de concreto. Um paredão com muitas outras janelas. Algumas, às vezes, pró- ximas demais. E aí, além da vista, outra questão entra em jogo, esta intimida- de forçada com vizinhos que é cada vez mais pungente nas cidades atuais. E assim a vida dos outros passa diante dos nossos olhos, como se fosse mais um canal da TV, aquela mesma que indica as horas. Um canal, porém, que não conseguimos desligar ou trocar por outro que tenha uma programação me- lhor, quando a que estamos assistindo não está agradando.
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