8 URBE | # 04/04 | EFEMERIDADES URBANAS Vista para Buenos Aires , Letícia Lampert E a vida na cidade vai seguindo nesses moldes, já entendidos como na- turais ou inevitáveis. Alguns se incomo- dam mais com essas janelas tão próxi- mas, outros menos. Alguns olham com curiosidade, outros com receio. Amiza- des e inimizades surgem e se desen- volvem entre janelas. Quem será aque- la pessoa que mora do lado de lá? De quem é aquela janela que vejo todos os dias acender e apagar sua luz? Será que de lá eles também me observam? Envolto no castelo de andaimes como um amontoado confuso de tábuas, cor- das, baldes, peneiras, tijolos, massas de areia e cal, o edifício crescia no outono. Sobre o jardim já tombava sua asa de sombra; o céu nas janelas da casa esta- va murado. Mas ainda parecia uma coi- sa provisória, uma tralha que depois se abate assim como se ergueu; era desse modo que a mãe tentava considerá-lo, concentrando o descontentamento em aspectos transitórios, como os objetos que caíam dos andaimes nos canteiros, ou a desordemdas traves na rua, evitan- do considerar o edifício como edifício, algo que ficaria plantado ali para sem- pre sob seus olhos. As fachadas e as paredes das ca- sas e dos prédios passam a significar um limite entre mundos, tão próximos e tão distantes ao mesmo tempo. Eu, de fora, pouco sei, ou nada sei, sobre o ou- tro lado dessas tantas paredes que me circundam, que circundam cada um de nós, diariamente, pelas ruas da cidade. O que tem do outro lado? Se as paredes de fora nada reve- lam, é a janela que aparece como elo entre esses dois lados, como ponto de contato entre o que é público e o que é privado, o que deve ser escondido e o que pode ser revelado. Afinal, é da na- tureza da janela que olhem através dela, é para isso que ela existe. Mas se ela foi feita para olhar para fora, não tem como evitar que de fora se olhe para dentro também. Toda moeda tem dois lados. E esse pouco que vejo pela janela (onde também me deixo ver, querendo ou não) é a única pista que tenho de todos esses moradores, esses tantos vizinhos que dividem seu CEP comigo. Entretanto, essa proximidade física não costuma se refletir na proxi- midade das relações subjetivas. Pelo contrário, parece que, para nos prote- ger dessa intimidade forçada com um outro desconhecido, criamos mecanis- mos e atitudes para nos afastar o má- ximo possível, cultivando um neutro distanciamento. Por isto fechamos a janela, puxamos a cortina, baixamos a persiana, na busca por um pouco de privacidade, na tentativa de fugir de ruí- dos incômodos ou dos olhares curiosos daqueles anônimos conhecidos que passam a habitar nosso dia a dia. Des- conhecidos já tão íntimos que muitas LETÍCIA LAMPERT

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