Palco Giratório 2025
047 tações a propósito da explosão da ideia fixa de território e como o pensamento afrodiaspórico aflorou pelo mundo. A pesquisadora com percurso de es- tudos em artes cênicas emMinas Gerais desde 2011 remontou às duas primeiras décadas do século XX, os grupos, proje- tos e festivais que Citou agrupamentos como Bando de Teatro Olodum (BA), Cia dos Comuns (RJ), Teatro Negro e Atitude (MG), Os Crespos, ColetivoNegro e SorayaMartins (SP), além do movimento segundaPRE- TA, em Belo Horizonte, e Festival Dona Ruth, em São Paulo. Além de pensarem concomitantemente as contradições so- ciorraciais e a própria prática teatral, es- sas teatralidades “criam uma ficção con- ceitual em que quilombo é uma forma de dizer fabulação”. Assim, ela entende fabulação “como possibilidade de pensar em formas alternas de ser e estar negros em cena no mundo, recriar histórias, re- contar memórias, tecer subjetividades, isso que eu chamo de produção de ima- gens”. Quilombo, prossegue, “é uma das formas de acessar outros mundos possí- veis a partir da politicidade do palco”. Para tanto, as navegações éticas e es- téticas a levaram a abraçar pensadoras como a historiadora Beatriz Nascimento (1942-1995), que recontextualizou a pala- vra “quilombo” em solo brasileiro, desde África, referendando assimumpoderoso sinônimo do povo negro, “a sede interior e exterior de todas as formas de resistên- cia cultural”. Lugar de relacionalidades, encruzilhadas e contaminações, sempre segundo a participante. Também bebeu na fonte da professora, poeta e pesqui- sadora Leda Maria Martins (1955), que difundiu o conceito de “negrura” para entender que “o corpo negro não é um bloco monolítico, uma essência estereo- tipada, como se costuma vender. Antes de tudo, é um conceito semiótico tecido por uma rede de relações” , afirma So- raya. As prospecções, observa, passam pela diáspora na travessia atlântica, a maior migração forçada da história da humanidade: o deslocamento para as Américas de cerca de 12,5 milhões de pessoas nascidas no continente africa- no entre os séculos XVI e XIX. Estima-se que 40% dessa população foi destinada ao Brasil por meio de navios negreiros e sob sabidas condições desumanas. Vindo do extremo norte do Brasil, Amapá, estado banhado pelo Oceano Atlântico, o bailarino emestre-sala Pablo Sena tributa toda a sua formação de vida em arte ao convívio com mestres do sa- ber no bairro do Laguinho, em Macapá, onde mora. “Eu sou criado na Associa- ção Universidade de Samba Boêmios do Laguinho, fundada há 71 anos. A Univer- sidade Federal do Amapá tem apenas 35 anos. Então, quem formou mais artistas em meu estado, a universidade de sam- ba ou a universidade eurocêntrica, de co- nhecimento ocidentalizado? Sou filho e neto de fundadores dessa escola de sam- ba, em 1954. A coletividade é a essência da minha construção artística. Sou fruto de uma formação oralizada, forjada no desfile carnavalesco, na ginga do samba, na afetividade de se pensar a escola de samba como forma de fazer e resistir ar- tisticamente”, afirma. Pablo aproveita para lembrar que Amapá é o estado brasileiro geografica- mente mais próximo dos Estados Uni- dos, faz fronteira com a Guiana, possui uma fortificação militar construída por portugueses no século XXIII, tida como das maiores da América Latina, e par- te de seu território serviu de base aérea para tropas americanas durante a Se- gunda Guerra Mundial (1939-1945). Seis meses antes de o vizinho Pará abrigar a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, a COP 30, o bai- larino já criticava a obsessão de alguns governos com a extração desenfreada de recursos naturais, mesmo com a evi- dência científica de que a temperatura média da Terra tem apresentado uma tendência consistente de aquecimen- to a cada ano. Entre 2023 e 2025 foram registrados níveis recordes desde as anotações iniciadas em 1880. Apesar de, por outro lado, se falar bastante em bio- diversidade nos dias que correm, “não se pensa em nossas comunidades que são pretas e multiculturais”, comenta o par- ticipante. “O nosso desafio maior é como viver coletivamente em uma sociedade neo- liberal e cada vez mais neoimperial.” Ele disse ter precisado aprender ou- tras linguagens a partir de técnicas “dão a ver formas novas de territorialização de sujeitos que vivem e estão em processos perenes de reconceitualização das estéticas” .
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