Palco Giratório 2025

080 Entre territórios que se movem e corpos que lembram: notas afrorreferenciadas sobre o Palco Giratório emPorto Alegre por Thiago Pirajira Artista cênico multidisciplinar, professor, curador e pesquisador. É professor na graduação em Tea- tro e na pós-graduação em Artes da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Artista dos grupos e co- letivos Pretagô e Usina do Trabalho do Ator. É di- retor artístico da CURA – Mostra de Artes Cênicas Negras. Pesquisa experiências e práticas perfor- mativas negras em perspectiva multidisciplinar. Porto Alegre, cidade marcada por apa- gamentos sistemáticos de suas popula- ções negras e indígenas, torna-se um es- paço particularmente significativo para observar essas dinâmicas. Mais do que cenário, a cidade é um território racia- lizado, estruturado por políticas de visi- bilidade e invisibilidade que organizam quem pode ocupar os espaços públicos e privados, quem é lembrado e quem é es- quecido. Ao receber, ao longo de 20 anos, um festival da importância do Palco Gi- ratório, a cidade não se coloca apenas como anfitriã: ela também é tensionada. Os espetáculos que chegam — vindos de diferentes regiões do Brasil — carregam consigo outros territórios, outras histó- rias e outros modos de inscrever o cor- po no mundo. O que se pode ver, então, é uma cartografia em movimento, na qual o território não é dado, mas constante- mente refeito, reencenado e disputado. Esta parece ser uma primeira reflexão que o festival articula em sua trajetória. Nesse contexto, a noção de Tempo Es- piralar, elaborada por Leda Maria Mar- tins, que está na programação do Palco Giratório em Porto Alegre este ano, ofe- rece uma chave de leitura fundamen- tal, especialmente quando colocada em diálogo com o que podemos compreen- der como afrotempos. Ao romper com a linearidade cronológica ocidental, o tempo espiralar propõe uma temporali- dade em que passado, presente e futuro coexistem em um movimento contínuo de atualização. Os afrotempos, por sua vez, tensionam a estrutura hegemônica ao evidenciar que o tempo não é apenas uma dimensão abstrata, mas uma ex- periência incorporada, situada e politi- camente marcada. São temporalidades que se constroem nos fluxos de ruptura e de reinvenção das diásporas negras, operando em ritmos que não se alinham às lógicas produtivistas e lineares da modernidade ocidental. Assim, pode- Há algo de profundamente instável — e, por isso mesmo, potente — quando pensamos o território não como delimi- tação fixa, mas como prática, processo, deriva. Não apenas como chão, mas como relação, disputa, memória e ima- ginação; aquilo que se produz no encon- tro entre corpos, narrativas e desloca- mentos. Em um festival substancioso e já longevo como o Palco Giratório, que tem um forte traço na circulação de es- petáculos, o território deixa de ser ponto de partida ou de chegada para se tornar travessia. E é nesse fluxo que esta es- crita se faz, pretendendo tramar a rele- vância do festival junto ao debate con- temporâneo, pelas lentes das Relações Étnico-Raciais.

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