Desvenda

017 016 sidades de visibilidade midiática, sempre às custas dos artistas, ou atender aos interesses de empresários em busca de isenções fiscais. Naquele momento a ideia de cooperativa era a via possível para quem fazia arte. A ideia de unir-se aos colegas e buscar um caminho factível para por a produção em evidência passava obrigatoriamente pelo autofinancia- mento e, sendo esse o princípio adotado pelos organizadores, essa foi a so- lução encontrada para continuar atuando. Naquele momento as iniciativas de caráter cooperativista estavam na ordem do dia e proliferavam os coleti- vos, os ateliês e outros caminhos assemelhados. Mas é importante ressaltar que, ao contrário daqueles coletivos, ateliês ou aglomerados de artistas, com variadas denominações e princípios normativos, a Desvenda não tinha um programa, pois não era um coletivo, não tinha uma filosofia, pois não era um movimento e também não tinha um projeto, pois não era um ateliê. Funcionava pura e simplesmente pelo sistema de cooperativa, isto é (como reza a Wikipédia), “uma doutrina que preconiza a colaboração e a associação de pessoas ou grupos com os mesmos interesses, a fim de obter vantagens comuns em suas atividades econômicas.” Modismos à parte, eles ficaram à margem dos filósofos, dos teóricos da arte e dos pseudo-movimentos (como a famigerada estética relacional...), somente preocupados com a sobrevi- vência material. Isso pode parecer, mormente aos românticos de plantão, uma afirmação cínica, mas devemos considerar que um artista tem apenas como moeda de troca, para comprar os meios necessários a uma vida digna, o fruto de seu trabalho, isto é, suas obras. Não há nisso nenhuma indignida- de ou diminuição da potência superior da arte, ao contrário, trata-se de uma iniciativa que coloca o artista como um profissional em toda a autoridade da palavra: um criador, um difusor e um gestor de sua produção. São alguns anos de história que a Desvenda traz na sua bagagem: ini- ciativa inédita, sucesso inequívoco, repercussão nacional, difusão ampla do modelo adotado, objeto de atenção e estudo de pesquisadores da arte e do seu sistema e, o mais relevante nisso tudo: o fato de ter oxigenado um sistema senil, à beira do colapso total, com um sopro de juventude, arrojo e coletividade. _

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