Desvenda
Maíra Ortins Artista visual A mala do caixeiro-viajante Pássaros, todos os que no chão desconhecem morada. Mia Couto,“Cada homem é uma raça.” Quando fui convidada a fazer parte de uma gestão pública como Coorde- nadora de Artes visuais, conheci por meio das atividades de coordenadora do Salão de Abril, o projeto “Desvenda”. Recordo que a comissão de sele- ção considerou relevante a proposta, posto que, consistia em realizar uma grande feira de arte contemporânea aberta nacionalmente a artistas bra- sileiros. Qualquer artista interessado em participar submeteria suas obras a seleção enviando propostas ao artista responsável pelo projeto. Ou seja, o salão ao selecionar um artista, acabaria por agregar tantos outros, de tal modo a inserir mais diálogo e questionamentos sobre arte e mercado. Estava lançada uma forma de burlar o sistema e congregar ideias de ar- tistas de todas as partes do Brasil num engessado modelo de evento, cujo limitado número de artistas estava pré-estabelecido. O princípio “privile- giados” alimentado por um sistema de exclusão, quebrava-se ali ao ser incorporado pela micropolítica da “Desvenda” que redimensionava toda uma lógica do processo seletivo. Rodrigo Lourenço que é o idealizador da “Desvenda” realizava uma ex- posição coletiva e ao mesmo tempo itinerante, sendo uma das regras para participação do projeto a máxima “tudo o que cabe em uma mala”. Tal qual um viajante errante vendedor de quimeras abria ele diante de mim uma es- pécie de baú repleto de gravuras, desenhos, pinturas, objetos.Minuciosamente observado por um par de grossas lentes e sob seu olhar inquieto e atento. Uma mala repleta de cores e histórias, posto que a medida que ia sacando as obras, ia ao mesmo tempo, desvelando “contos” numa memória costurada em retalhos, construída em cada paragem onde a feira aportou. Ambicioso pro-
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