educaSesc#4
EDUCA SESC 14 2020 Nesse sentido, vale pensar o acolhimento como sendo muito mais que momentos pontuais, muito além da “adaptação”da criança nos seus primeiros dias na escola. O acolhimento sendo método de trabalho tem uma grande relevância na constituição do trabalho pedagógico na Educação Infantil, já que ele permite pensar nas formas como as instituições têm acolhido a criança e suas histórias, suas hipóteses, suas indagações, suas expectativas, seus planos e também suas ilusões sobre o mundo (STACCIOLI, 2013). Nas DCNEI é possível encontrar alguns apontamentos acerca dessa temática, principalmente quando o documento afirma que as escolas de Educação Infantil precisam se constituir como espaços acolhedores, voltados a introdução da criança no universo cultural (BRASIL, 2009). Para que de fato o acolhimento seja reconhecido no contexto da Educação Infantil, faz-se necessário conceber a criança como sujeito histórico e de direitos, que aprende nas relações e práticas cotidianas que vivencia, o que a constitui como centro do planejamento educativo, conforme priorizam as DCNEI (BRASIL, 2009). É também a partir dessa concepção de criança que os princípios ético, político e estético da Educação Infantil devem ser respeitados nas ações pedagógicas, possibilitando reflexões acerca da autonomia, responsabilidade, solidariedade, respeito, direitos, sensibilidade, criatividade, ludicidade e liberdade (BRASIL, 2009). Ter a criança no centro do planejamento é acolhê-la em sua essência, com seus desejos, com suas particularidades. Porém, também acreditamos que para poder acolher as crianças, os adultos precisam ser acolhidos, ouvidos, compreendidos. No Sesquinho Santo Ângelo, encontramos um lugar de acolhimento, de escuta recíproca, de preparação dos ambientes, de diálogo aberto, de sensibilidade para com os adultos e as crianças – todos sujeitos aprendentes e produtores de cultura. Poder observar na escola, durante nossas pesquisas de campo, o conceito de criança viva, potente, capaz, que participa, explora, interage e busca em conjunto com seus professores, é uma alegria enorme. As narrativas produzidas pelas acadêmicas que participaram das visitas na escola, nos mostram que “na prática a realidade é possível”, pois por meio de seus depoimentos conseguem observar os estudos e reflexões teóricas que realizamos na Universidade, sendo vividos no cotidiano da escola. Um dos aspectos que sempre chama a atenção dos participantes das pesquisas de campo é o modo como a escola organiza os espaços e materiais, fugindo de uma lógica de “dar aulas”(onde mesas, cadeiras e quadro prevalecem ocupando a maior parte do espaço). Referente a essa temática, a acadêmica Sandrieli Inácio, que participou das visitas nos anos de 2017 e 2018, e que já atua como professora na Educação Infantil, ressalta que: Na sala, um espaço tão organizado que meus olhos brilhavam, tudo era harmônico, o posicionamento dos objetos, a composição das cores (…) Nele encontravam-se colheres de alumínio, peneiras, taquinhos de madeira, dinossauros e uma caixa de areia. Mesmo descrevendo com detalhes é impossível relatar tamanho acolhimento apenas olhando a imagem (Sandrieli Inácio). Nesse sentido, o espaço é concebido como um lugar acolhedor, o qual oferece conforto, amparo, bem-estar, brincadeiras, desafios e produção de cultura; um espaço pensado com e para as crianças, serve como um aliado no processo de aprendizagem, acolhendo as subjetividades, as singularidades de cada criança, valorizando a autonomia e garantindo a interação entre as crianças (ROSSET, RIZZI EWEBSTER, 2018; BRASIL, 2009). A imagem 1 permite observar como é a organização de um dos espaços da Escola do Sesquinho em Santo Ângelo/RS, descritos pela acadêmica Sandrieli. Por meio dessa imagem pode-se notar como os espaços são pensados e organizados. As paredes são “decoradas”com produções das crianças, os móveis e materiais estão na altura das crianças, possibilitando que as mesmas tenham livre acesso para ver e tocar, os objetos têm suas cores e formas naturais, não sofrendo modificação estética pelos adultos. Nesse sentido, Sandrieli salienta que observar esses espaços possibilitou com que pensasse mais sobre o modo como organiza sua prática pedagógica na sua atuação profissional: Tudo isso determinou minha maneira de pensar os espaços brincantes, principalmente as recepções das crianças. Me redimensiono frente ao que estou criando para programar onde cada objeto será colocado, como as crianças circularão pelo ambiente, imaginando como irão brincar e manipular o que está sendo proposto, cogitando as dificuldades e perigos que terão se, por um exemplo, colocar um pano voil em um piso laminado extremamente liso (Sandrieli Inácio). Outro ponto observado na imagem, e presente na escola, é a estética do ambiente. Assim pensar na harmonia das cores, nas texturas e elementos, na disposição dos materiais, possibilita que as crianças possam tocar e olhar, ações de grande relevância no contexto da Educação Infantil (VIEIRA; GOZZI, 2010; BRASIL, 2009). A acadêmica Stéphanie Regina Castilhos, também participou das visitas nos de 2017 e 2018 e ressalta: Imagem 1: Espaço de uma sala da Escola Sesquinho Santo Ângelo/RS. Fonte: Arquivo pessoal da autora Flávia Burdzinski de Souza.
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