educaSesc#4
23 EDUCA SESC 2020 A relação dela com a música iniciou antes da sua prática profissional, pois utilizava a música para memorização de sinais, mas foi na tradução das aulas com músicas que se perguntou: “por que ninguém traduz as músicas se estas são parte da aula também?”. Assim, foi desenvolvendo esse conhecimento e encontrando recursos, estratégias e ferramentas de tradução que expressassem o sentido, sons e sentimentos daquilo que era ouvido. Seguindo nessas interpretações musicais, Dülly teve a oportunidade de, por já ser reconhecida como alguém que atua na interpretação de músicas, traduzir a apresentação da Banda Ala 3 (referida anteriormente) e expressar seu sentimento pela música para a comunidade. Para realização do concerto que estamos relatando, os ensaios foram realizados com a presença de uma amiga surda da intérprete que relatou sua emoção pois pode perceber diversos aspectos musicais que lhe emocionaram ao assistir com a interpretação. Esse mesmo sentimento foi relatado pela comunidade surda que presenciou o concerto e vieram cumprimentar os músicos e a intérprete no palco, trocando percepções sobre o evento: destacaram a impressão que tiveram de apreciar o concerto interpretado em Libras como muito positivo. A comunidade surda que esteve presente se encantou com a experiência, visto que ainda não tinham vivenciado algo assim na cidade e região. Para o desenvolvimento da proposta, encontramos alguns desafios em relação à viabilidade de ensaios e apresentações, pois todos atuaram de maneira voluntária e nem todos os participantes residiam no mesmo município. Por não contar com profissionais nem recursos específicos para a divulgação, esta pode não ter sido tão efetiva, apesar de terem sido enviados materiais para jornais e ter sido pago um anúncio no Facebook, além da distribuição de convites e cartazes pela cidade. CONSIDERAÇÕES FINAIS Pretendemos com esse relato destacar a necessidade de tornar os ambientes musicais mais inclusivos, garantindo a possibilidade de acesso para a comunidade surda nestes ambientes. Pode ser um desafio para o profissional intérprete de Libras realizar este tipo de atividade, sendo pequeno o número dos que trabalham nessa área da música e menor ainda na área da música instrumental. Além disso, existe um medo de ser julgado ou rejeitado (tanto pela comunidade surda quanto pelos outros intérpretes) por pessoas que não concordam com a tradução musical por entendem que a música não está dentro da cultura surda. Pelos estudos apresentados e pela experiência relatada, vimos que a música pode ser para quem a quiser e que esses limites devem ser ressignificados. A interpretação e tradução de música para Libras pode ser pensada como algo prazeroso para o surdo, que permite acesso à música como emoção, instrumento de lazer e cultura. Mesmo algumas pessoas considerando que a música não está vinculada à comunidade surda, questionamos: por que algo tão lindo, tão bom e que traz tantas emoções, não pode estar vinculada à comunidade surda? Pelo relato da comunidade surda que esteve no concerto, percebemos a emoção pelo que viveram: através dos classificadores utilizados (demonstrando os instrumentos diferentes alturas e intensidade) puderam compreender e sentir aquela apresentação. Percebemos que essa experiência proporcionou aprendizagens musicais e sociais entre as pessoas envolvidas, já que elas puderam contribuir e construir coletivamente um evento. Alguns grupos musicais precisam criar e produzir seus espaços para apresentações e podem pensar as questões de inclusão e acessibilidade neste processo. Para as pessoas ouvintes, perceber que o concerto também pode ser um espaço para a comunidade surda auxilia na sensibilização e percepção das diferenças e potencialidades. Ver a música sendo interpretada em Libras pode transmitir para pessoas normalmente excluídas dessa experiência a oportunidade de sentir a música e fazer “viagens musicais”em conjunto, tornando o ambiente musical mais inclusivo. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AMORIM, Silvia Miranda; FRANÇA, Lucia Helena. Razões para Aposentar e Satisfação na Aposentadoria. Psicologia: Teoria e Pesquisa, Brasília-DF, v. 35, e3558, out. 2019. DOI: 10.1590/0102.3772e3558. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102- 37722019000100607&script=sci_arttext&tlng=pt. Acesso em 14 jan. 2020. RIGO, Natália Schleder. Tradução poética de músicas para língua brasileira de sinais (Libras). Tradução em Revista, v. 27, p. 301, 2019. Disponível em: https://www.maxwell.vrac.puc -rio. br/45942/45942.PDF. Acesso em 13 jul. 2020. STEBBINS, Robert A. Educating for serious leisure: Leisure education in theory and Practice. World Leisure and Recreation, 41(4), 14-19, 1999. Disponível em: https://www.tandfonline.com/doi/ abs/10.1080/10261133.1999.9674163. Acesso em 23 abr. 2020. ESTELA KOHLRAUSCH é especialista em Gestão Cultural: cultura, desenvolvimento e mercado (Centro Universitário Senac) e Tecnologias da Informação e Comunicação na Educação (FURG). Possui graduação em Licenciatura em Música pela Universidade Federal de Santa Maria (2007) e bacharelado em Música, instrumento viola, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2011). DÜLLY GÜNTHER é intérprete de Libras. Existe uma constante atenção em tornar a música acessível e a utilizar criativamente variados espaços
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