educaSesc#4
25 EDUCA SESC 2020 muitas vezes, o texto historiográfico, como discurso ‘científico’, unifica. A análise da ficção, como um espaço onde a História acontece, contribui para a construção dos conhecimentos históricos. (ARENDT; CONFORTO, 2004, p. 1). A leitura não é uma habilidade inata do ser humano. Isto significa que ela precisa ser aprendida. Este aprendizado ocorre por meio do estímulo e da interação com textos. Por isso, Balzan enfatiza o caráter social da leitura ao afirmar que“esse aprendizado ocorre a partir do convívio social, daí a leitura ser uma prática social”(BALZAN, 2018, p. 1). A literatura, por sua vez, por integrar a cultura de um povo e contribuir para uma prática social – a leitura –, pode ser considerada um bem sociocultural, já que ela“aparece como manifestação universal de todos os homens em todos os tempos”(CANDIDO, 2004, p. 174) e“permite o gosto pelas artes, cultura e conhecimento de si mesmo, pois tem o poder de expressar os sentimentos mais especiais do homem, merecendo, desta forma, a importância e os valores sociais enquanto manifestação artística.”(NOBERTO, 2011, p. 1). As práticas de leitura estão vinculadas não só às sociais e culturais, mas também às econômicas. Isto significa que elas não são – ou pelo menos ainda não foram– completamente democratizadas e, portanto, não estão disponíveis para todos. Segundo Vargas Llosa, a literatura é um direito de todo e qualquer cidadão e deveria ser acessada por todos como um direito essencial, pois“sem ela, o espírito crítico, motor da mudança histórica e melhor avalista de sua liberdade, com que contam os povos, sofreria uma perda irremediável. Porque toda boa literatura é um questionamento radical do mundo em que vivemos.” (VARGAS LLOSA, 2004, p. 359). Conforme Peter Hunt, os livros são essenciais para a sociedade, uma vez que são contribuintes da história social e vitais para cultura daquele que lê ou ouve uma história: Do ponto de vista histórico, os livros são uma contribuição valiosa à história social, literária e bibliográfica; do ponto de vista contemporâneo, são vitais para a alfabetização e para a cultura, além de estarem no auge da vanguarda da relação palavra e imagem nas narrativas, em lugar da palavra simplesmente escrita. (HUNT, 2010, p. 43). Hunt ressalta as multimodalidades da literatura, que pode manifestar-se através das formas oral, visual e escrita. Essas multimodalidades englobam a contação de histórias e a produção de vídeos sobre literatura, que serão o foco das atividades propostas pelo projeto“Era uma vez…”. CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS: DESAFIOS E POSSIBILIDADES A literatura proporciona diversos benefícios ao ser humano, como a ampliação da linguagem e a capacidade de argumentação crítica. Além disso, ela é uma grande fonte de estímulo à criatividade e à capacidade de interpretação, principalmente pela sua polissemia. Isto significa que bons livros literários estão abertos a diversos olhares e interpretações, que podem contribuir para debates significativos. Em virtude de seus diversos benefícios, recomenda- se que o apreço pelos livros inicie na primeira infância, pois a literatura infantil é fundamental para a formação de uma sociedade leitora. Ouvir histórias, entrar em contato com os livros, manuseá-los, observar as ilustrações, leva a criança a desenvolver a imaginação, a elaborar as emoções e sentimentos de forma prazerosa e significativa. Conforme Reis: o incentivo à leitura literária deve ser o foco de toda sociedade comprometida com a inclusão cultural e com o desenvolvimento intelectual de seus membros, visto que a leitura é o principal mecanismo para a apropriação do conhecimento e perpetuação da cultura. Iniciativas que promovam o impulsionamento das manifestações culturais são indispensáveis para a formação do sujeito, nesse sentido, destaca-se que o bem-estar de uma comunidade está intrinsecamente relacionado com a democratização do acesso à leitura e aos movimentos artísticos e culturais, que são eficazes para o lazer e entretenimento, assim como também para o enriquecimento pessoal e valorização da diversidade cultural. (REIS, 2020, p. 16). Sabe-se que existem dois fatores que contribuem para que se desperte o gosto pela leitura: a curiosidade e o exemplo. Dessa forma, não podendo estar em contato direto com livros, é possível reduzir carências literárias através da contação de histórias. Ouvir histórias pode ser uma ação importante na formação de cidadãos que, por meio delas, poderão informar-se sobre a vida e os ambientes que os cercam, resgatando qualidades e o valor de experiências coletivas: O ofício de contar histórias é remoto (...) e por ele se perpetua a literatura oral, comunicando de indivíduo a indivíduo e de povo a povo o que os homens, através das idades, têm selecionado da sua experiência como mais indispensável à vida. (MEIRELES, 1979, p. 41). Para Torres e Tettamanzy (2008, p. 5),“contar histórias é arte performática, em que se tenta retransmitir os contos pelos meios nos quais surgiram, ou seja, através de voz, corpo e gesto”. Além de proporcionar momentos de criatividade e motivação, ao utilizar a contação de história“todos saem ganhando, sejam os ouvintes, que serão instigados a imaginar e criar, seja o contador, que terá a oportunidade de recriar um ambiente de resgate da memória.”(TORRES; TETTAMANZY, 2008, p. 7). Os ouvintes envolvidos se tornarão cidadãos criativos e comprometidos com o respeito à diversidade. Assim, justifica-se o porquê, há séculos, o ato de contar histórias encanta crianças, jovens e adultos de todo o mundo, independentemente do lugar em que nasceram ou de sua origem social. Tendo em vista a democratização do acesso à leitura e a difusão da literatura em suas diversas manifestações, o projeto“Era uma vez…”, em 2020, foi planejado com foco em distribuir livros e contar histórias como forma de reduzir a solidão causada pelo isolamento social. As atividades realizadas serão elencadas posteriormente. O PROJETO “ERA UMA VEZ...” Conforme a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró-Livro em 2016, atualmente“o desafio é conseguir despertar para a leitura uma geração quase entorpecida pela comunicação emmeio digital.”(FAILLA, 2016, p. 20). No entanto, segundo Roger Chartier, quando bem utilizada, a tecnologia pode ser benéfica para a formação de leitores e para o incentivo à leitura: O essencial da leitura hoje passa pela tela do computador. Mas muita gente diz que o livro acabou, que ninguém mais lê, que o texto está ameaçado. Eu não concordo. O que há nas telas dos computadores? Texto - e também imagens e jogos. A questão é que a leitura atualmente se dá de forma, fragmentada, num mundo em que cada texto é pensado como uma unidade separada de informação. (CHARTIER, 2007, p. 2). Dessa forma, e visando manter o isolamento social, as atividades do projeto foram planejadas de forma que pudessem ser viabilizadas no formato virtual. A primeira atividade foi executada com o objetivo de democratizar a literatura. Ela foi realizada em parceria com a Secretaria de
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