educaSesc#4
9 EDUCA SESC 2020 Alice, por sua vez, nos manda muitos registros fotográficos, ajudando a tirar leite, subindo nas árvores, fazendo comidinhas com terra, aproveitando as frutas da estação, brincando e estando próximos de muitos animais. Isso tudo me fez pensar nos diferentes tempos em que cada criança está tendo a possibilidade de viver nesta pandemia. Um tempo compassado com aquilo que é natural, com as sutilezas, com o nascer e pôr do sol, com os animais e os afazeres da vida do campo. Ar puro, contato com a terra, sapequices na árvore e tempo para se ter tempo: de viver, de ser infância e de aproveitar genuinamente cada instante. Um tempo de espera. Esperar o pão crescer, assar e ficar pronto, esperar o peixe fisgar o anzol. Esperar o final de semana para com seus pais estar. Perceber os fenômenos naturais, a chuva que molha, o sol que arde, o frio que aparece. UM RITUAL Narrativas pelo olhar da professora Pricila Para Luiza, a primeira ligação foi um pouquinho difícil, pois ela queria contar as suas vivências e brincar, mas o telefone a impossibilitava por ter que carregá-lo a todo o momento. Na segunda ligação, Luiza me deu uma pista, já que na sala tínhamos rituais desde sua chegada e isso a organizava. Assim que atendeu ao telefone nos cumprimentamos e logo com sua voz bem baixinha e serena começou a cantar a música “Se essa rua fosse minha”. Então, chegou em uma parte da música que ela não lembrava mais como cantava e pediu “profe você me ajuda?” Juntas cantamos o restante da música e desde aquele dia esse é nosso ponto de conexão, pois só iniciamos a nossa conversa depois de cantarmos esta música. AS LIGAÇÕES NA PRÉ-ESCOLA A necessidade de escuta com as crianças da pré-escola foram sendo uma demanda cada vez maior. Inicialmente nossas conversas eram rápidas, algumas crianças perguntavam“porque você está me ligando? Eu não tenho nada para falar com você.” E realmente, as ligações não eram algo rotineiro nas vivências das crianças e, quando precisávamos conversar, esses assuntos eram resolvidos no momento em que nos encontrávamos. Essa foi uma dentre tantas aprendizagens das crianças, percebemos com isso que as ligações ficavam cada vez mais extensas, todos os assuntos e acontecimentos eram guardados com muito carinho, para compartilharmos no próximo telefonema. Além disso, como as ligações normalmente ocorreram de forma individual, fomos percebendo quais eram as demandas de cada criança. E com isso mais um ganho, já que efetivamente conseguimos ver as crianças no individual, o que elas estavam fazendo em casa, acompanhando quando caia cada dente e qual o ritual que cada família realizava para esse demarcador de tempo e também de mudanças. Assim, com cada levantamento já se elaborava um plano de ação para a próxima ligação, propondo brincadeiras e situações que auxiliassem as crianças, dando segurança de que elas teriam auxilio e apoio, além do que a família já estava oferecendo. CONSIDERAÇÕES FINAIS Longe de burocracias ou tarefas a serem cumpridas pelas professoras, as ligações vividas falam de disponibilidade, escuta, conversas, acolhimento, encontro e pertencimento. Falam da vida que pulsa. As ligações proporcionaram a adultos e crianças muitas aprendizagens, mudanças e crescimentos. Foram (e são) tempos de nos conhecer, de ressignificar a escola e as relações existentes nela. Um tempo de ser presença sem estar presente, um tempo de escutar e de calar, de enviar e devolver, um tempo em que aprendemos o verdadeiro significado de cada minuto e de cada encontro. Temos muitas coisas para contar que marcam esse tempo vivido e que não podem ficar no esquecimento, por este motivo ao longo de todas as ligações íamos escrevendo mini-histórias (FOCHI, 2019) dos episódios que aconteciam. Estas histórias serão sistematizadas num livro de “Coletâneas de Mini-histórias: narrativas de um fio invisível”, entregue às famílias e que compartilharemos pelas redes sociais do Sesc de Santo Ângelo ao final deste ano. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS FOCHI, Paulo Sérgio. Mini-histórias: rapsódias da vida cotiana nas escolas do Observatório da Cultura Infantil – OBECI. Porto Alegre: Paulo Fochi estudos pedagógicos, 2019. HOYUELOS, Alfredo. Complexidade e relações na educação infantil. São Paulo: Phorte Editora, 2019. STACIOLLI, Gianfranco. Diário do acolhimento na escola da infância. Tradução (do italiano) Fernando Ortale e Ilse Paschoal Moreira. Campinas, SP: Autores Associados, 2013. [...] todos os assuntos e acontecimentos eram guardados com muito carinho, para compartilharmos no próximo telefonema. ALINE DEZENGRINI DE SOUZA é Professora da Escola de Educação Infantil do Sesc – Sesquinho Santo Ângelo/RS. JULIANA BEATRIZ MACHADO RODRIGUES é Coordenadora Pedagógica da Escola de Educação Infantil do Sesc – Sesquinho Santo Ângelo/RS. MARIÉLE NUNES MUSIALOWSKI é Professora da Escola de Educação Infantil do Sesc – Sesquinho Santo Ângelo/RS. PRICILA DALLA PORTA FRANCO é Professora da Escola de Educação Infantil do Sesc – Sesquinho Santo Ângelo/RS.
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