122 de solidão e angústia passados naquele local. Algumas pessoas podem pensar não haver solidão por estar convivendo com tan- tas pessoas interessantes no meu entorno. Porém, com o fim do meu relacionamento durante a viagem e com o distanciamento de amizades antigas, somado aos infinitos conflitos existenciais que estava passando com a chegada dos trinta anos, a sensação era de vazio. Por diversas vezes passou pela minha cabeça que se por algum acaso eu ficasse com sequelas nomeu pé, seria um grande empeci- lho para continuar fazendo novos contatos e seguir minha carrei- ra. Minha profissão como autônomo necessita estar em constante movimento. Afinal de contas, a continuidade do que faço depen- de de eu ir até as pessoas, não de as pessoas virem até mim. Pelo menos nesse estágio da minha profissão. Uma complicação em an- dar e me locomover livremente comprometeria meu trabalho dos sonhos, assim como toda minha vida social. Estava confiante de nada disso acontecer, mas não tinha nenhuma certeza. Aqueles momentos de confinamento dentro desse apartamento tinham sido extremamente doloridos, mas me fizeram amadure- cer em diversos aspectos. Agora teria mais uma semana isolado dentro de uma casa vazia, acompanhado apenas de cômodos ina- nimados, buscando algo para passar o tempo, assim como lidan- do com minhas perturbações mais profundas. No Cairo só havia amigos que moravam longe, com quem eu não tinha grandes intimidades. Para mim, desenhar sempre foi uma atividade só possível quando tenho uma ideia inesperada. Não havia TV, rádio ou internet no local. A solução encontrada para passar o tempo foi ficar os dias me dedicando a escrever um tex- to, que de certa maneira, ajudou muito a filtrar os sentimentos que estavam me angustiando. Ao longo da viagem, percebi a Sheila passando também por um momento de muitas inquieta- ções. Deixei para ela esse texto no momento da nossa despedida final. Vou compartilhar em seguida.
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