123 Os dias antes do retorno da Sheila foram de solidão total, apenas acompanhado da apenas da agenda de anotações, minha grande companhia. Passei uma semana só tendo a escrita como única dis- tração. A agenda tinha sido um presente da minha ex-namorada e na capa tinha uma frase: “Mar calmo jamais fez um bommarinhei- ro”. Servia como uma luva para o meumomento, no entanto, ainda estava no meio da tempestade. Raios e trovões, ventos intensos e fortes ondas, batiam no meu barco à deriva. No meio da tormenta, acontecera um desvio de rota, assim como havia perdido a minha bússola, me obrigando a buscá-la para reencontrar um rumo. Quando estava novamente pirando naquela situação de enclau- suramento solitário emumapartamento, decidi enviar umamen- sagem para a Fernanda, da embaixada brasileira. Quando entrei em contato com ela, descobri que estava morando em Zamalek, um bairro próximo de onde eu estava. Recebi a resposta para ir jantar na casa dela. Aquela notícia foi maravilhosa. Precisava ver gente, precisava conversar com alguém. Na noite seguinte, chamei um Uber para me levar até a casa da Fernanda. Quando o motorista chegou, entrei no carro e come- cei a tentar um diálogo. De começo já percebi que ele não falava uma única palavra em inglês. Quando perguntei coisas simples como: “what is your name” ou “how are you”, a resposta recebi- da foram apenas algumas frases em árabe. Decidi ficar calado, só desfrutando das músicas egípcias tocadas no rádio; também curtindo as paisagens urbanas pela janela do carro. O aplicativo do Uber estava marcando uns trinta ou quarenta mi- nutos, mas já passava dessa previsão. Percebia o motorista des- viando da rota marcada no mapa. Ficamos ambos em silêncio, porque qualquer comunicação era impossível entre a gente para qualquer pergunta. Tentei fazer alguns sinais por gestos, apon- tando para o celular ou apontando com o dedo as mudanças de caminhos. Porém, recebi novamente as respostas em árabe. Co- mecei a ficar um pouco apreensivo com aquela situação.

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