173 adiante havia um rapaz com buracos no lugar dos olhos e comuma bengala emuma dasmãos, na outra uma lata deNescau, apontando para quem passava. Cruzei também por alguém sem os dois braços e sem as duas pernas, apoiado em uma coberta estendida no chão. Um senhor de turbante, com roupa tradicional branca, com uma barba grisalha até a barriga, mas que parecia não estar na pior das condições comparado aos demais. Umoutro jovemque tambémpa- recia bem pobre, mas tinha uma boa aparência, nos viu passando e fez gestos querendo dizer para tirar fotos dele. Tiramos e tivemos que seguir em frente. Quando chegamos à mesquita, por ser um espaço mais amplo, o fluxo de gente se dissolveu e decidimos perguntar para o Miraan o motivo de tanta gente sem membros. Essas, com certeza, foram as situações mais recorrentes vistas ao longo da caminhada. Eu e o Rikardo ainda estávamos um pouco impactados, mas nosso guia parecia agir como se nada tivesse acontecido. Ele certamente já es- tava acostumado, já havia normalizado. Porém, apesar de ver po- breza nas ruas de Mumbai, a gente não tinha essa visão com tanta frequência. Quando indagamos Miraan, a resposta foi curta e dire- ta, mais oumenos assim: “Na religiãomuçulmana quemcomete cri- mes contra Alah paga com uma parte do corpo”. Em contraste com a miséria, as construções religiosas erammajes- tosas, comarquitetura gigantesca, cheia de detalhes minuciosos, le- tras árabes esculpidas em ouro, assim como móveis e objetos caros por todos os cantos. Parecia a mansão de um sheik ou a residência de um milionário. Mas o local era sagrado, apenas para rezar para que Alah faça do mundo um lugar melhor e mais justo para viver. Andamos mais umpouco pela parte externa e vimos o local onde os fiéis molhavam as mãos e os pés. Estava acontecendo as rezas, por- que ainda era o horário do Zhur, a devoção feita próxima no meio do dia. A tradição dos muçulmanos de usar sempre sandálias é por- que toda vez que vão rezar precisam lavar os pés e fazem isso cin- co vezes por dia. Nos horários do Salat as ruas ficavam desertas,
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