180 res cobertas de negros panos da cabeça aos pés e me espiando com olhos brilhantes por trás do tecido tramado como grades de prisão. Vi minaretes cor de areia, caí de uma pirâmide, fiquei confinada em um apartamento, mergulhei no mal azul turquesa em meio ao deserto, fui barrada por soldados armados emumassentamento de refugiados palestinos, me espremi em vielas por onde só passava uma pessoa, morri de rir de uma vaca sagrada e endiabrada, abri caminho em meio à multidão de mutilados diante de um templo, conheci pessoas incríveis de várias nacionalidade, senti apreensão, choque e encantamento. Vi e pensei o que nunca tinha visto e nem pensado. Pelos olhos e pela escrita do autor conheci e despertei. Ao mesmo tempo, reconheci e redescobri aquele ser antes tão familiar. Senti umpouco de vergonha daminha ignorância histórica, mes- mo sendo uma velha jornalista. E também me vi como uma mãe omissa em vários sentidos. Mas isso não importa porque fui mais leitora do que mãe ou jornalista. Li num fôlego, em quatro noites e me deparei com uma pessoa corajosa não só por ter voado para o outro lado domundo comdinheiro contado, ou por ter trocado uma zona de conforto por uma zona de conflito, desconhecida, desafia- dora, mas principalmente por revelar suas contradições, medos, e ingenuidades. A disposição de não julgar e de tentar entender o que antes lhe parecia inconcebível, também torna a narrativa singular. Sem qualquer cheiro de heroísmo ou de análise, o livro é, porém, é ummergulho – por vezes umafogamento - e não umamera narrati- va contemplativa de superfície. Acrescento uma única informação privilegiada de quem conhe- ce autor do relato desde o nascimento. Na verdade, é apenas um fato cotidiano ocorrido na sua infância e catado no baú da memó- ria pouco depois de ter recebido seu surpreendente telefonema su- gerindo que eu escrevesse o fechamento do “O Islã e a Maçã”. Na época, ele era um piá rebelde, desses que apronta no colégio, que recebe suspensão e queixa das professoras, que se metia em brigas e passava de ano raspando ou no último minuto do segundo tempo (eu costumava pedir para a diretora reunir as reclamações em um “pacote” e me chamar só de vez em quando). Um dia, meio exaspe- rada, perguntei: “Guri, tem alguma matéria que tu gostes, afinal?”.
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