039 a gente na altura da cintura e quando olhei para minha esquerda, vi aqueles bancos conjuntos para várias pessoas, com quase todas inclinadas para frente para poderem me enxergar melhor. Olhei para a direita e vi o mesmo. Vi duas mulheres conversando em árabe de maneira exaltada, olhando para mim. Fiquei paralisado, sem reação inicialmente, pensando na infelicidade da minha distração. Estava no metrô fe- minino. Ficou um clima tenso com muitas mulheres falando alto em árabe. Já não sabia quais eram conversas rotineiras ou qual eram conversas destinadas a minha presença indesejável. Mas a minha sensação era que todas as conversas eram para mim. Via aquilo da mesma forma de quando estamos sob o efeito de algum entorpecente em um lugar inapropriado e parece que todos estão te observando, mesmo sem realmente estarem. Passei mais alguns minutos com aquela atmosfera pesada de des- conforto, com toda gente me olhando ou comentando sem parar. Já tinha passado uma enxurrada de pensamentos até que conse- gui racionalizar que precisava descer na próxima estação, mas a próxima estação não chegava nunca. Esperar algo com apreensão faz a duração do tempo parecer uma eternidade, com cadaminuto parecendo uma hora. Por fim, abriram-se as portas, fazendo eu me levantar rapidamente e sair de fininho com a cabeça baixa. Acho que nesse momento tive uma felicidade parecida com Moi- sés ao abrir o Mar Vermelho. Para o meu olhar, aquelas duas fo- lhas de porta se abrindo se assemelhavam a dois jorros de mar, um para cada lado. Tamanho era minha ansiedade para sair daquela situação que foi essa a minha visão. A Bíblia conta que Moisés li- bertou os hebreus da escravidão no Egito abrindo o mar ao meio com seu cajado, para levar seu povo à terra prometida de Canaã. Hoje historiadores desmistificam essa história, mas o romantismo sempre permanece. Inclusive, depois visitei uma praia chamada Dahab, localizada bempróxima do exato local onde dizemqueMoi- sés fez o grande milagre.

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