060 co de ficar com alguma sequela, por ter ficado mal curado. Pedi para o Alberto pegar na farmácia próxima uma gaze para enfai- xar o pé. Ele pegou. Após, ele e a Sheila precisaram sair. Estavam em função de finalizar uns trabalhos. A minha ideia era ficar umas duas semanas só deitado, com o pé integralmente para cima (para processo de cura mais rápido) sem fazer absolutamente nada de movimentos exigindo esforço. Achava importante meu corpo enviar cem por cento de energia para sanar a ferida interna da minha contusão. Os primeiros dias descansando foram tranquilos, li bastante, desenhei e escrevi, atualizando minha agenda de anotações. Essas atividades faziam as horas correrem mais depressa e qua- se sempre estavam acompanhadas do som de fundo das rezas muçulmanas. Isso trazia um certo ambiente de inspiração para minhas anotações e rascunhos. Os ponteiros do relógio passa- vam comigo sentado o tempo todo no sofá da sacada, com o pé em cima de uma grande pilha de almofadas. Teve uma vez que passei uma tarde inteira desenhando a paisagem de prédios em frente à sacada, minha única visão diariamente. Tomava um re- médio para inflamação ao acordar e outro ao dormir. Passava pomada em três diferentes etapas: de manhã, no meio da tarde e à noite. Andava mais descansado, agora com grande esperança de po- der continuar minha peregrinação. Ponderar, pensando no fato da viagem não ter acabado, me deu um certo alívio. Seria culpa demais para carregar: perder de conhecer Líbano, Síria e Índia por causa de um pulo mal calculado. Em contraponto, estavam acontecendo várias atividades interessantes das quais não podia estar presente. Sentia agonia de não conseguir desfrutar dessas oportunidades únicas. Comecei a ficar obsessivo pela ideia de como somos dependentes do ato de caminhar. Sem meu pé eu não conseguia ter atuação em nada, me sentindo um inútil. Colo- quei uma disciplina espartana de não ceder às tentações de sair.
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