061 Na casa não tinha televisão, rádio ou computador. O Alberto e a Sheila estavam trabalhando, normalmente saindo pela manhã, voltando só à noite, já cansados. Assim sendo, lá pelo quarto dia, as horas começaram a ficar mais arrastadas. Comecei a perder a concentração para ler, para desenhar ou escrever, fazendo com cada vez menos frequência. Não aguentava mais fazer aquilo todos os dia. Precisava sair, ver gente, conversar. Preocupado, passei a ter dificuldades para dormir, tornando-se cada vez mais desgastante ficar ali parado. Lá pelo quinto dia, na incapacidade de fazer algo para me dis- trair, com sessões de ócio integral, a minha cabeça começou a ir para todas as direções imagináveis. Iniciei uma busca de lem- branças de tudo ocorrido na minha travessia de vida, tentando achar significados. Começou a virar um desgosto gigante ver o sol lá fora, com a rotina acontecendo em um país onde talvez ja- mais tivesse chance de retornar. As exóticas vivências possíveis naquele lugar distante estavam me escapando. Pelo sexto dia, estava piorando aquela enxurrada de pensamentos nostálgicos, formava-se uma teia de memórias de criança até momentos atu- ais mais variados, que eu nunca tinha parado para refletir sobre. No sétimo, passava horas fazendo tramas dos acontecimentos passados, pensando nas milhares de pequenas decisões ou atitu- des que poderiam ter mudado o rumo de tudo. Assim como fazia ínfimas relações das coisas que estavamacontecendo e poderiam influenciar no futuro. Agora não conseguia mais a mínima habi- lidade de me concentrar para ler, desenhar ou escrever, minhas únicas distrações. A impressão a essas alturas, era de cada segun- do durar horas – comecei a criar uma outra noção de relação com a passagem do tempo, chegando um momento em que o tempo parecia apenas uma convenção social. Quando completou por volta de uma semana, comecei a entrar em paranóias com arquétipos, como se todas as experiências do mundo, na verdade, fossem uma só, que tudo acontecia sem line- aridade e toda gente estava passando pelas mesmas dores e pra-

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