098 rigindo falava com a mulher responsável. Não entendíamos uma única palavra, só dava para perceber uma comunicação bem conflituosa. Depois, nos traduziam a conversa, mas seguíamos entendendo só algumas coisas. Partimos para tentar outra entrada. Nosso motorista estava com os nervos cada vez mais à flor da pele. Nesta segunda tentativa a tática era a mesma. Tapar os cabelos e fingir estar dormindo. Che- gamos e começou novamente o diálogo em árabe, entre nossos companheiros palestinos e os guardas libaneses. Papo vai, papo vem, começou a acalorar demais a interação entre ambos os lados. De novo não compreendemos nada sendo dito, porém, era muito claro que nosso amigo e o segurança estavamquase saindo na por- rada, coma diferença de omilico estar comuma arma. O palestino sentado no carona do nosso carro entrou também na discussão, assim como os outros guardas ao redor. Ficamos um período lon- go nesse stress, com alguns tentando acalmar e outros botando le- nha na fogueira. Naquele momento me apegava à fé de que os milicos não iriam atirar por saber saberem que isso iria causar muitos problemas das possíveis repercussões. Porém, as armas são muito perigosas justamente porque muitas das mortes são causadas de cabeça quente, sem pensar nas consequências. Apesar de militares pre- cisarem de autorização para matar, não foram raras as vezes em que o abuso de poder foi usado, consequentemente o exército dan- do um jeito de encobrir o erro. São inumeráveis os autoritarismos da polícia ou o exército agindo dessa mesma maneira prepotente. Sem esquecer que estávamos na fronteira com a Síria, um país em guerra, com uma atmosfera de aflição e violência, portanto, com bemmais motivos para atitudes impulsivas. Não saímos do carro emnenhum instante, apenas nos restando es- perar para ver qual seria o desfecho final. Toda a discussão era em árabe, não podíamos nem intervir para tentar acalmar os ânimos. Sendo assim, ficamos só observando, mudos como uma porta.

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