Revista Palavra 11
palavra. sesc. literatura em revista. 2022. João Anzanello Carrascoza página 028 Conto Eu e Scherazade dos outros – a minha mesma eu sequer soletrava –, não no- tei, à primeira vista, nem mais tarde, que ela vinha para de- safiar a minha compreensão de mundo. Foi um cerco lento, igual à escritura de um texto, uns avanços, muitos retroces- sos, a expressão exata para uma narrativa confusa, e eu desconfiado, depois de tantos desencontros, que o destino tivesse ainda algum interesse em mim, que me poupasse de uma nova paixão. Quando me dei conta, estava preso a ela, que já frequentava minha casa entrando e saindo, descontraída, sem se abalar com as asas negras de minhas queixas nem com o rugido que Naquele tempo, eu não tinha esse rosto nem essas mãos ara- das pelas histórias que escrevi, nos meus olhos morria pela manhã o luar que neles entra- va à noite, eu era um rascunho e não queria me passar a limpo. Estava resignado a ser uma pá- gina mal acabada, não aceita- va apagar meus erros, eu fazia questão de atirar as palavras nas costas do silêncio. Eu fu- gia de mim, como um cavalo de galope, macerando pedras pelo caminho, sem me importar se me feriam os pés a cada passo em falso. Então, ela apareceu, com aque- le enredo todo em seu corpo jovem, e, certamente porque eu me recusava a ler a vida ecoava do meu mutismo toda vez em que eu a surpreendia sair do banho e, num gesto na- tural de pudor, escondia-se na toalha (para, assim, revelar-se plenamente), como quem pre- tende ocultar o segredo nas en- trelinhas de um relato. E justo nas ocasiões em que eu mais me aborrecia – o mundo con- tinuava adverso para mim! –, ela sorria, divertindo-se com a importância que eu dava ao que, na sua ótica, não valia um minuto de aflição. Seu saber, misterioso, ultrapas- sava toda a minha longa vivên- cia. Comecei a folheá-la, movi- do por um ciúme compulsivo, à procura, nas tramas de seu passado, dos momentos felizes João Anzanello Carrascoza
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