Revista Palavra 11
palavra. sesc. literatura em revista. 2022. João Anzanello Carrascoza página 029 com outros amores, ansioso para revidar, contando-lhe umdos capítulos que eu tinha – bem mais que ela – nes- se assunto. Mas sempre que tentava rabiscar com meu desprezo um dos trechos de sua vida ou descrever episó- dios de minha odisséia sen- timental, ela imediatamente saltava para o futuro, dizen- do, Vire a página!, pronta a escrever, em águas calmas, os nossos dias vindouros. Então, nasceu o hábito que provocaria a minha ascen- são – e também o meu mar- tírio –, a via-crúcis das noi- tes em que a sua ausência me agulharia a ponto de me sufocar se eu não tentasse despejar no papel uma his- tória em que, discretamente, reproduziria as linhas que o acaso (o acaso?) havia escri- to em mim com a sua che- gada. Um hábito, a princípio pueril – que recordava meus tempos demenino, à hora em que minha mãe, ajeitando- -me na cama, me embalava com canções de ninar –, mas que, enfim, era umdilaceran- te desafio, a maneira que ela encontrara para me ensinar a me interpretar, sílaba por sílaba. Mal se deitava, fe- chava os olhos e me pedia, Lê pra mim, e eu, atendendo ao seu pedido, apanhava o li- vro à minha cabeceira, fosse qual fosse, abria-o e começa- va a ler, voltando ao universo represado no papel, à espera de minha voz para lhe soltar à vida. Demorei a entender que, len- do para adormecê-la, eu des- pertava a verdade capaz de iluminar meu próprio des- tino e, noite-a-noite, espan- tava-me a rapidez com que eu a fazia cair no sono, justo ela que, não raro, passava horas diante da tevê lutando contra a insônia. Por vezes, chegávamos exaustos do trabalho, moídos pelos reve- zes e, ainda assim, ao repou- sar a cabeça no travesseiro, ela pedia, Lê pra mim, e eu, depois de percorrer, aos tro- peços, umas poucas linhas do livro que ali deixara, já ouvia a sua respiração alte- rada, indício de que dormia profundamente. Com a dedicação de um sa- cerdote, acostumei-me tan- to a esse ritual que bastava vê-la vestir a camisola, ou retirar a colcha da cama, para escutar, mesmo sem que movesse os lábios, o seu singelo pedido, Lê pra mim. E, sem delongas, eu cuidava imediatamente de satisfazê- -la com uma leitura pausa- da, certo do milagre que iria produzir nela e, sobretudo, em meu próprio espírito. Assim seguimos durante meses, até que, uma noite, uma noite, semnenhumavi- so, ela dormiu, dormiu, dor- miu, e ainda não despertou. Não por acaso, agora, sem- pre quando o sol se esconde, escrevo uma história e a leio em voz alta. É o meu jeito de tentar acordá-la desse sono, mesmo sabendo, claro, que jamais conseguirei. © Marcos Vilas Boas João Anzanello Carrascoza é autor dos romances que compõem a Trilogia do adeus , além de diversos livros de contos, como Aquela água toda e Catálogo de per- das . Suas histórias foram traduzidas para o bengali, o croata, o espanhol, o francês, o inglês, o italiano, o sueco e o tâmil. Re- cebeu três vezes o prêmio Jabuti, quatro vezes o prêmio da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, tornando-se hors- -concours, duas vezes o prêmio da Funda- ção Biblioteca Nacional, o prêmio da APCA e da Cátedra Unesco, além dos internacio- nais Radio France e White Ravens.
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