Revista Palavra 11

palavra. sesc. literatura em revista. 2022. Juliana Valentim página 030 Conto O menino e a borboleta Não tardou e as pessoas come- çaram a notar, com estranheza, aquela improvável amizade. Era só colocar seus pés, ainda pin- go de gente, no quintal, que ela aparecia. – É só coincidência! – seu pai dizia. – Não deve ser a mesma, são só parecidas! –mas ele sabia que era ela, a mesma borboleta, a sua borboleta. Um dia, ainda na infância, percebeu que sua mãe anda- va com olhos tristes. Aqueles olhos tristes chegaram com a doença, instalaram-se no sofá da alma e nunca mais se levan- taram. Com eles, veio o corpo frágil, o brilho apagado, a dor, uma dor que doía no peito de toda a família. No dia em que sua mãe se foi, o menino, já mais crescido, pas- sou horas no quintal. E deixou- -se acariciar pelas asas avelu- dadas da borboleta. Eles dois Talvez tenha sido aos cinco anos de idade. Não, aos seis ou sete. A verdade é que ele não se lembra de quando tudo come- çou. Em suas memórias mais antigas, ela já estava lá, colori- da como se tivesse acabado de sair de uma pintura. No começo, não deu muita bola. Cada vez que brincava no quintal, a borboleta o seguia, enroscava-se em seus cabelos cacheados, pousava na ponta dos dedos ou do nariz. Depois de um tempo, passou a observar com mais cuidado os detalhes de suas asas. Tra- ziam um desenho rebuscado, com círculos cuidadosamente delimitados, intercalados entre azul, vermelho e amarelo, tudo muito vivo. Mas o que mais o intrigava era que o desenho se repetia igualmente emcada asa, uma perfeita simetria. sabiam que a vida a partir dali nunca mais seria a mesma. Ao fechar os olhos, ouviu um sus- surro: sua mãe ganhou asas, deixe-a voar. Ele deixou. Aos poucos, as coisas voltaram para o lugar. Sempre que se sen- tia só, buscava por sua borbole- ta. Ela vinha, ela sempre vinha. E o tempo seguiu seu curso, im- placável e misterioso como as margens de um rio. Então, veio o primeiro amor. Com ele, hormônios, humores e as bochechas coradas que só a juventude é capaz de oferecer. Omenino virou um caldeirão de sentimentos e amou o quanto pôde, mais do que pôde. Até que o namoro acabou. E abriu-se um buraco no chão que o engoliu. Ele caiu, caiu, caiu... Quando os pés tocaram o fundo, lá estava ela, colorida, batendo suas asas Juliana Valentim

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