Revista Palavra 11

palavra. sesc. literatura em revista. 2022. Juliana Valentim página 031 até trazê-lo de volta à superfície. Ao fechar os olhos, ouviu um sussurro: amar é aprender a dar asas ao outro. Ele aprendeu. De repente, a casa ficou peque- na, como se os sonhos não cou- bessem mais ali. O menino não queria partir, pois tinha medo de que a borboleta não fosse com ele, de que ela pertencesse àquele quintal. Mas ela foi. Ele seguiu pela vida, casou-se e teve filhos. Viveu como vivem muitos, com pressa de existir. Caminhou pelo mundo com os mesmos pés de seus antepas- sados – trabalhou, construiu, sofreu, dividiu. Sem perceber, os filhos se despediram e foram explorar seus próprios cami- nhos. Uma solidão avassalado- ra se apoderou dele. Quando o choro se tornou fre- quente, a borboleta passou a fa- zer cócegas emseu nariz, a cada lágrima que caía. Ele ria. E o riso o lembrava de que as coisas boas sempre voltam. Ao fechar os olhos, ouviu um sussurro: fi- lhos têm asas próprias, incenti- ve o voo. Ele incentivou. Foi com certo espanto que per- cebeu que o tempo havia passa- do, o espelho já não dizia mais a mesma coisa. A borboleta não tinha envelhecido, não assim, como ele. Nos últimos anos, suas cores pareciam até mais brilhantes e a perfeita simetria entre as asas não havia se alte- Juliana Valentim é uma jornalista e escritora brasiliense, pós-graduada em Comércio Ex- terior e Jornalismo Digital. Atuou em diver- sas empresas e agências de comunicação, no Brasil e no exterior. Sua grande paixão é a literatura e a produção de conteúdo criativo. É autora de três livros: Manuscritos de um viajante , Crônicas, 2007; Palavras que dan- çam, Poemas e fragmentos , 2014; O Abrigo de Kulê , Romance, 2020. Juliana é consultora de escrita criativa, professora de poesia, além de gerenciar o perfil literário @palavrasque- dancam, que atualmente conta com mais de 51 mil leitores. Em 2021, foi a vencedora do Prêmio Ler É Legal, como escritora home- nageada do ano, pelo Ministério Público do Distrito Federal. rado ummilímetro sequer. Fazia uma tarde azul quando se sentou à sombra de uma árvore e esperou sua amiga aparecer. Queria observar aquela familiar beleza que o havia salvado, tan- tas vezes. Mas ela não apareceu. Então, ele esperou. Por horas e horas, por muitas vidas, até nascer o outro dia. Algo dentro dele sempre soube que isso iria acontecer, mas ele não estava preparado. Naquela manhã, achou uma afronta o sol brilhar tão bonito. Os pássaros, insensíveis, can- tavam alegremente, alheios à sua dor. Naquele dia, ele queria chuva: ventos, raios e trovões. Queria que o mundo se reco- lhesse, por ele e pela borboleta que não voltou. Mas o mundo não obedeceu, pintou o céu de azul-anil, ar- dendo seus olhos alagados. Lembrou-se de como aprendeu a dar asas aos outros. Foi as- sim com sua mãe, seus amores, seus filhos, com todos os que amou. Gostava de dizer às pessoas: voem. Achava bonito desejar isso a alguém, que batesse as asas, que fosse além. Mas ele mesmo nunca havia tirado os pés do chão. Ali, enquanto ouvia o doce can- to do passado, percebeu que © Thaís Mallon não é a vida que passa rápi- do, somos nós que passamos apressados por ela, sempre cor- rendo atrás de qualquer coisa, muitas vezes, sem sequer nos perguntarmos o porquê. Não é a vida que passa rápido, somos nós que a deixamos passar, sem perceber. Ao fechar os olhos, ouviu um sussurro: aproveite suas pró- prias asas, voe. Então, pela pri- meira vez, voou. E se lembrou dos ensinamentos da borbole- ta, coloridos e simples assim, a vida é pra ser voada, jamais rastejada. E fim.

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