Revista Palavra 11

palavra. sesc. literatura em revista. 2022. Telma Scherer página 059 Telma Scherer é artista e professora de Lite- ratura Brasileira no curso de Letras da UFSC. Trabalhou como poeta e performer durante vários anos, para diversas instituições, antes de atuar como docente. Formada em Filosofia e em Artes Visuais, com mestrado e doutora- do em Literatura. Publicou os romances As avessas (Ipêamarelo) e Lugares ogros (Caia- ponte), o híbrido Entre o vento e o peso da página (Medusa) e seis livros de poesia, en- tre eles, Rumor da casa (7 Letras), Depois da água (Nave), Não alimente a escritora (Heca- tombe) e Squirt (Terra Redonda), semifinalista do prêmio Oceanos. © J.M. Terenzi [3] não há mais nódoas no corpo, os arrepios foram reprimidos. não há sorrisos escondidos no meio do jingle jangle que ilude o fast food. há só migalhas de momentos mal passados entre telas suadas pelos dedos de ninguém. há torturas que vêm do outro lado do mundo e se alojam em nossos escritórios. há latas e baratas cujo medo do veneno não engana. são blefes do tempo, tabefes na alma de quem não acorda ninguémmas se dispõe a deitar antes da sala, na chuva, para as agruras de todo o calendário. há ajudas de todos os tipos que se pode dar com um clique ou com estômago e intestino. há cachorrinhos e gatinhos e nenês engraçadinhos de todos os gostos para fazer rir e distrair aqueles que destroçaram a última anuência. e eles estão dormindo. Alguns tufos eram duros, tive que cortar fazendo esse ruído que não perturba o cidadão de bem, pois tesoura de poda não pede nada. Depois sentei no meio da sala, perfumada de lavandas, fiquei olhando o dia acontecer. Nada aconteceu. Puxei uma ponta do intestino para fora, e plena de vazios pus-me a escovar um a um os meus calçados. Estavammolhados de orgasmo. Cantei. Eles finalmente acordaram. O bebê latiu, pedindo teta. O pai pôs as coisas para assar, a mãe foi a sobremesa, pele bem esticada de piadas. Foram o amor entre risadas. Eu, para além do muro do meu punhal abri um vinho. Espionaram-me, como convém a quem tem pele de cão e vigia a vida alheia. Não era São João e a massa de merda ainda se formava enquanto eu meditava sobre a grama cortada. há um grito querendo se divulgar por menos e sensualiza a sede dos outros, há surras e panos e peles irretocáveis, bacanais antissustentáveis para o gozo do robô. e cada vez mais regras sobre como se velar o último suspiro de um corvo. apenas não há corpos, há dança de contratos e nenhum contato para as improvisações. você já pagou suas prestações?

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