Revista Palavra 11
palavra. sesc. literatura em revista. 2022. Clarice Freire página 066 Crônica Tempo em vista De quando em quando, semmuito aviso ou pre- disposição para tal, acabo por ver o Tempo no meio da rua. Ver, que eu digo, é ver mesmo, com os olhos de carne, não os subjetivos de dentro, que de abstratos não têm nada. Ver vendo, por causa do dom das retinas e de todo o trabalho cerebral que decodifica o que se vê. Pois. De vez em quando eu vejo o Tempo. Essa semana fui tomada por um espanto meio engasgado e frio, quando me deparei com ele sentado à mesma mesa onde estávamos minha mãe, minha avó e eu, em um café que gostamos de ir para con- versar em uns domingos retilíneos. Ele havia, sem perguntar se podia, puxado a cadeira. Tomava um café comum e averme- lhado, com aquela sua cara de interrogação. Explico um pouco mais o meu assombro con- trafeito: a essa altura, já sei que há lugares aon- de ele vai com mais frequência, mesmo que seja difícil vê-lo como estava vendo naquele momento, bem ali, tão perto e medonho. No mesmo ambiente que ele, ouvindo a respi- ração daquele estranho mostrando a mim que está vivo e passando, inspirando, passando, expirando, nunca me havia acontecido. De certa forma, já não me assusto quando o vejo nas praças, por exemplo, onde gostam de ir criaturas mais versadas que eu: as crianças, os bichos e as árvores. Ele gosta de conversar com esses, comigo, não. Que fique claro: as ve- zes que o vi, foi de longe, bem distante e, depois de uns instantes fingindo não ser notado pela Clarice Freire minha vista, ele sempre acabava cruzando o olhar com o meu, com aquela sua cara de quem sabe da minha intimidade. E eu entrava em pânico, um pavor espalhado pelo corpo como se tivesse derramado água fria por dentro da pele, quando vista. Disfarça- va, mudava a rota, buscava alguém ou olhava algo que o matasse, sem piedade ou dúvida. Temos um desespero por matar o Tempo, eu acho. Um instinto assassino por ele, umnegócio meio terrível, assim. Mas ninguémacha terrível a sua morte. Antes ele do que eu, pensamos. Apesar do nervosismo por vê-lo em lugares abertos, estava protegida pela distância. Nun- ca trocamos nenhuma palavra, não converso com ele, com aquela sua cara de suspeita. Pois imagine você como foi, naquela tarde, en- tre um gole quente e uma distração, percebê-lo ali, sentado, entre as duas mulheres do meu ontem e amanhã. À esquerda minha mãe, à di- reita, minha avó. Dois tempos do meu sangue feminino fora de mim passando, inspirando, passando e expirando. E o Tempo. Não havia constrangimento na- quele seu jeito fixo de olhar, me desafiando a demonstrar aos outros saber que ele estava ali. Mas eu não podia, seria loucura demais. Se preocupariam e comentariam depois entre si. Quem, afinal, sai dizendo que viu o Tempo sen- tado à mesa, tomando café?
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