Revista Palavra 11

palavra. sesc. literatura em revista. 2022. Clarice Freire . Escritora pernambucana, mestra em Ciências da Lin- guagem, criadora dos perfis Pó de Lua (@podeluaoficial), nas redes sociais. Neles escreve e desenha sua poesia visual. Assim conquis- tou mais de 1 milhão de seguidores no Facebook e no Instagram. Autora de dois livros de poesia pela editora Intrínseca, sendo o se- gundo finalista do Prêmio Jabuti, na categoria ilustração. Clarice Freire página 067 Preciso matá-lo, pensei sem culpa. Ao momento exato do meu pensamento, o Tempo pousou as duas mãos sobre a mesa, como quem espera um golpe. Fez isso em um movimento impressionante, não sei descrever como se move o Tempo, é uma coisa misterio- sa até para mim, que o vi. E achei bonito de ver. Me deu pena de matá-lo, mas segui. Agarrei-me ao celular, a arma mais comum, le- tal e eficaz para a morte imediata do Tempo, coisa muito atual e moderna. No entanto mi- nhas mãos tremiam, meus lábios já estavam pálidos e minha vista parecia não encontrar entorpecimento em nada que se apresentava na tela. A vida dos outros. A vida dos outros. A vida dos outros. Uns sapatos. Umas mesas. Uns utensílios domésticos. Levantei de novo os olhos, lá estava ele, dessa vez sorrindo sa- tisfeito e curioso. Me examinava como se me amasse e aquilo só aumentou a minha angús- tia. Desisti do celular. Puxei alguma conversa sobre a cor provocativa do bolo da minha mãe, ou se a torta da minha avó não estaria doce de- mais. Não conseguia pensar em nada interes- sante. Conversas curtas, não se enraizaram na mesa, veio o silêncio e o Tempo pareceu alar- gar um pouco mais a fenda do sorriso de boca fechada, que não saia do seu rosto grave. O que você quer? Perguntei irritada em um sussurro discreto e inaudível. Minha mãe es- tava contente por sair de casa. Olhava o car- dápio recitando as opções, parecia declamar uma poesia com gosto. Minha avó não de- monstrava nada e olhava a filha dela. Olhei ao redor. Em outra mesa, num canto, havia um menino com sua expressão sozinha. A mesa tinha mais gente, mas ele era triste, pequeno e só. Olhava fixo para o Tempo sentado comigo, com olhos de estupefação. Eu acho que senti consolo quando vi aquele menino. Mas ele não me viu para se sentir em companhia também. O que você quer? Repeti para o Tempo, sabendo que ele entenderia meu murmúrio. Acho que, na exatidão das coisas, nos conhecemos com- pletamente. E ele sabe que não quero matá-lo. É raso e oco o desejo infindo de matar o Tempo. Ele estava em silêncio. Continuei a encará-lo. Percebi que ele, agora, olhava como quem me aceita. O desgosto diluíra emmim, ao longo da- quele Tempo. Ele levantou a mão com pele áspera e trans- parente, erguendo sua xícara miúda e branca para mim. Tomou um gole sem pressa. Dizia, sem dizer, que queria apenas aquele café. E parecia que me queria. Parecia que não tinha bem um objetivo. E eu o quis de volta. O desejei ali, comigo. Com elas. E vivo. © Leo Aversa

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